quarta-feira, 20 de maio de 2009

TAPIOCA

TAPIOCA

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco



A mandioca (Manihot esculenta) é uma planta produtora de amido, da família das euforbiáceas, originária da Guiana Brasileira (norte do Amazonas e do Pará), do sul das três Guianas (a Britânica, a Holandesa e a Francesa) e, ainda, do sul da Bahia e nordeste de Minas Gerais. Foram os índios tupis-guaranis, que ocupavam o litoral nordestino brasileiro, os responsáveis pela difusão do uso comestível da mandioca, que, produzida através da agricultura de subsistência, representava sua base de alimentação, na época do descobrimento (mediante a fabricação dos beijus e do cauim, uma bebida muito popular entre os nativos). Em Olinda, a farinha de mandioca é consumida desde o século XVI, com a invenção portuguesa das casas de farinha.

Existem dois tipos de mandioca: a doce, mais conhecida como aipim, macaxeira ou mandioca mansa; e a amarga, chamada mandioca brava. Ambas são idênticas na aparência: apresentam uma casca parda e uma massa branca que contém um suco acre e leitoso. Este líquido, por conter uma elevada proporção de ácido cianídrico, é venenoso na mandioca brava. Entretanto, através de um processo que envolve a cocção, a planta perde toda a sua toxidade, convertendo-se em farinha ou polvilho.

Largamente utilizada na alimentação, a mandioca possui um alto valor energético e, ao mesmo tempo, um baixo teor de proteína. Por sua vez, acompanhada da carne-seca, a farinha de mandioca era o principal elemento da alimentação dos escravos africanos. Por essa razão, os senhores de engenho e os lavradores de cana, por meio de alvarás e provisões régias (datadas de 1642, 1680 e 1690) foram obrigados a cultivar o tubérculo. Decretos posteriores vieram ressaltar essa obrigação, quando daqueles exigiu-se o plantio de, pelo menos, quinhentas covas por escravo.

Ao longo do tempo, junto com o açúcar e o coco, a mandioca foi incorporada ao rol dos elementos importantes da indústria de confeitaria e da culinária brasileira. Com ela, são preparadas saborosas receitas de biscoitos, bolos, roscas, sequilhos, mingaus, pães, entre outras comidas deliciosas. E, desde o século XVII, ela tem representado um alimento significativo na mesa de nordestinos e nortistas, sendo muito utilizada na culinária junina. A mandioca - que representa o verdadeiro pão do Brasil - só não é cultivada em terras demasiado argilosas, em trechos montanhosos secos, em terrenos cheios de pedras, muito íngremes, e em baixadas com excesso de umidade.

Faz-se necessário esclarecer como se chega à goma da mandioca. O processo de extração desse elemento é bem simples. Primeiro, a raiz (previamente descascada) é ralada e espremida, dela extraindo-se um líquido leitoso. Em seguida, esse líquido é colocado para descansar em um recipiente. No fundo dele, após algumas horas, vai se depositar uma espécie de massa, que se separa da água, por completo: essa massa é a goma da mandioca. Deve-se, então, escorrer a água e colocá-la ao sol para secar. Quando ela estiver seca, deve-se esfarelá-la com as mãos e passá-la em uma peneira, para que se transforme em um pó branco e fino.

E como é que, da goma, se faz a tapioca?

A tapioca representa uma iguaria típicamente brasileira, de origem indígena, feita com o amido extraído da mandioca, conhecido como goma. Em outras palavras, originalmente, é uma espécie de beiju que possui, em seu interior, uma camada de coco ralado.

Para elaborar a tapioca, deixe aquecer bastante, em fogo brando, uma chapa de metal anti-aderente, redonda, com cerca de vinte centímetros de diâmetro, e espalhe uma camada fina de goma de mandioca sobre ela (o suficiente para cobrir o fundo da chapa) com uma pitada de sal. Com as costas de uma colher, espalhe a goma e cubra o fundo do recipiente de maneira uniforme. À medida que a chapa vai aquecendo, esse pó se aglutina, toma a forma de uma panqueca ou um crepe, e suas bordas se desprendem do fundo. Asse a tapioca por um ou dois minutos, vire-a com uma espátula e deixe-a assando por mais alguns segundos. Ainda na chapa, recheie a tapioca com coco fresco ralado ou um pedaço de queijo de coalho, dobre-a ao meio, aperte bem para transformá-la em um semicírculo (uma meia lua), coloque manteiga de garrafa sobre ela (opcional) e sirva quente.

Em alguns pontos turísticos como o Alto da Sé, na cidade de Olinda, em Pernambuco, pode-se degustar uma saborosa tapioca, feita na hora, produto que é considerado um patrimônio imaterial cultural da região. Na Sé, essa tradição teve início com uma senhora chamada dona Conceição, na década de 1970, que, para se sustentar, tornou-se tapioqueira. Nessa época, em plena ditadura militar, o local era considerado um dos pontos de agitação da contracultura, e Olinda representava o foco da resistência cultural. As tapiocas eram vendidas a estudantes, intelectuais, políticos e artistas populares e eruditos, que lá promoviam concertos e teatro de vanguarda. Com o crescimento do turismo em Olinda, atraído principalmente pelo carnaval, as tapioqueiras se multiplicaram, na cidade que é patrimônio cultural da humanidade. Hoje, elas estão até organizadas em uma Associação.

Uma das comidas típicas em Pernambuco é a tapioca molhada. De acordo com receita coletada pelo sociólogo Gilberto Freyre, tira-se o leite de um coco (com água), adiciona-se açúcar e sal (a gosto) e derrama-se esse líquido, aos poucos, sobre as tapiocas (recheadas com coco ralado), molhando-as bem. Em seguida, elas são colocadas em camadas, polvilhadas com canela, abafadas e servidas quente.

Nos restaurantes, há alguns anos, a tapioca vem atraindo a atenção de chefs de cozinha, que decidiram transformá-la em atração. Desse modo, no cruzamento de criatividades e habilidades, eles inventaram diversas receitas e recheios e reinventaram a própria tapioca. No presente, ela é um sucesso na culinária brasileira e faz parte do rol das especiarias regionais.

Os variados recheios, hoje oferecidos, dão um toque realmente especial à tapioca. Em se tratando dos doces, ou doces e salgados, é possível degustá-la, ainda, com os seguintes recheios, além do tradicional coco ralado: queijo e goaiabada, leite condensado, goiabada, morango, mel, chocolate, doce de leite, brigadeiro, doce de banana, banana com mel, banana com canela, banana com chocolate, calda de uva, goiabada com mussarela, morango com chocolate, chocolate com mussarela, queijo coalho com banana frita e canela, queijo fresco com calda de uva, banana com leite condensado e canela, leite condensado com maracujá.

Em relação aos recheios salgados, pode-se comer tapiocas com: manteiga e sal; mussarela; mussarela e catupiry; mussarela, catupiry e provolone; mussarela e chedar; mussarela e catupiry; provolone e chedar; parmesão, presunto e mussarela; presunto e provolone; presunto e catupiry; presunto, mussarela e catupiry; frango; frango e catupiry; frango e chedar; frango, mussarela e catupiry; salame e catupiry; salame e provolone; queijo fresco, queijo coalho, peito de peru e chedar; queijo fresco, peito de peru e tomate; camarão; amendoim; castanha; charque; carne de sol; entre tantas outras combinações gostosas.

De alimento básico dos índios, de tímido beiju seco feito com goma, a tapioca se transformou em deliciosa iguaria folclórica. É bastante lembrar que, no presente, existem alguns pontos comerciais na Região Sudeste voltados, apenas, para a venda dessa comida típica, e que oferecem, aos clientes, a oportunidade de provarem tapiocas com mais de cinqüenta tipos de recheios.

Fontes consultadas:

ASPECTOS da cultura e da indústria da mandioca. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 1967.

BARICKMAN, B. J. Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

BOSISIO, Arthur (Coord.) ; LODY, Raul ; MEDEIROS, Humberto et al. Culinária nordestina: encontro de mar e sertão. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2001.

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do folclore brasileiro. 9. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1954.

CAMPOS, Eduardo. A gramática do paladar. Fortaleza: Casa de José de Alencar Programa Editorial, 1996.

CARPEGGIANI, Schneider. Acorda, São João! Diário Oficial do Estado de Pernambuco, Suplemento Cultural, Recife, ano 15, p. 3-4, jun. 2001.

CULINÁRIA TAPIOCA. Disponível em: . Acesso em: 1º jun. 2007.

GUSMÃO, Flávia. Oi, pisa o milho... Penerô xerém! Diário Oficial do Estado de Pernambuco, Suplemento Cultural, Recife, ano 15, p. 12-13, jun. 2001.

HORTA, Carlos Felipe de M. M. (Coord.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Editora Leitura, 2000.

LIMA, Claudia. Tachos e panelas: historiografia da alimentação brasileira. Recife: Edição da Autora, 1999.

MACHADO, Clotilde de Carvalho. Quindins de Yayá. Recife, [1978].

MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brasil. Rio de Janeiro: Livreiro; Paris: H. Garnier, [19--].

RECEITAS. Disponível em: . Acesso em: 1º jun. 2007.

RECEITAS para São João. 4. ed. Salvador: Federação das Indústrias do Estado da Bahia/ SESI/ FIEB, Artesanato, [19--].

SOUTO MAIOR, Mário. Comes e bebes do Nordeste. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 1984.

______. Alimentação e folclore. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Massangana, 2004.

TAPIOCA. Disponível em: . Acesso em: 1º jun. 2007.

TAPIOCA é reconhecida como patrimônio imaterial. Disponível em: . Acesso em: 1º jun. 2007.

VAINSENCHER, Semira Adler. Mandioca. Disponível em: . Acesso em: 4 jun. 2007.

_____________. Culinária junina. Disponível em: . Acesso em: 4 jun. 2007.

VALENTE, Waldemar. Folclore brasileiro: Pernambuco. Rio de Janeiro: MEC, Funarte, 1979.

SUAPE - PORTO E COMPLEXO INDUSTRIAL

SUAPE - PORTO E COMPLEXO INDUSTRIAL

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco


Antes de falar do Complexo Industrial-Portuário de Suape, faz-se necessário discorrer um pouco sobre a descoberta do Cabo de Santo Agostinho, que fica situado no perfil do mapa de Pernambuco, e alguns outros dados históricos referenteS ao mesmo. Segundo os registros que remetem aos tempos do descobrimento da América, no dia 26 de janeiro de 1500, Vicente Yanez Pinzón, um dos companheiros de viagem de Cristóvão Colombo, foi o primeiro europeu a chegar no local, três meses antes do próprio Pedro Álvares Cabral. Pinzón chamou a nova terra descoberta de Santa Maria de la Consolatión, em homenagem à santa protetora das embarcações, hoje denominado Cabo de Santo Agostinho. Trata-se de um local belíssimo, que se encontra a 40 km ao sul da cidade do Recife.

No dia 28 de outubro de 1580, foi instituído o morgado de Nossa Senhora da Madre de Deus do Cabo de Santo Agostinho, vinculando-se a ele o engenho Madre de Deus que, posteriormente, foi chamado de Engenho Velho. Na época, o povoamento da área compunha-se de algumas casas distantes umas das outras.

Cabe ressaltar que Suape era o nome de um ancoradouro existente na ilharga do Cabo, que ficava separado do mar por um cordão de recifes de arenito. Em sua extremidade norte, no qual desembocavam três rios importantes - o Massangana, o Tatuoca e o Ipojuca - uma muralha de aproximadamente 800 metros permitia o acesso de pequenas embarcações. Quando somente os índios viviam ali, o atual rio Massangana era chamado de Suape - que, em tupi, significa caminho incerto - devido à própria trajetória incerta desse rio. Desde o começo da civilização, então, por seu alto valor estratégico, a posição do Cabo de Santo Agostinho e a configuração das regiões adjacentes deram margem à utilização do estuário de Suape como base de infra-estrutura portuária, bem como à disputa de holandeses e portugueses pelo seu domínio, em grandes batalhas. Desde sempre, portanto, aquele estuário exerceu funções econômicas e estratégicas.

No século XVII, quando os holandeses fortificaram um reduto do Cabo de Santo Agostinho, o conde Bagnoli construiu uma fortaleza nas imediações, para proteger o porto de Santo Agostinho. A mesma, chamada depois de Nazaré, foi uma edificação inútil porque não conseguiu defender o lugar nem a barra. Posteriormente, mudaram o seu nome para Forte de Nazaré e Forte do Pontal de Nazaré. Era desse porto que os pernambucanos embarcavam os seus produtos e recebiam provisões e socorros da Europa e das demais capitanias, além de desembarcarem os escravos africanos. Na localidade, ainda é possível se apreciar as ruínas daquele Forte.

Em 1635, a área capitulou: os portugueses perderam o domínio do porto de Santo Agostinho e abandonaram o território da Capitania. Somente em 1646, o porto retomou as suas funções de apoio à Insurreição Pernambucana. Por ele, passaram uma caravela (repleta de armas, munições e mantimentos) e quatro pesados navios ingleses que abasteceram os restauradores. Entre outros, a disputa também terminou quando Vidal de Negreiros mandou obstruir a barra do porto com pedras. Depois disso, e até meados do século XIX, por ali só navegaram pequenos barcos e jangadas.

Um outro espaço, por sua vez, foi se formando no Cabo de Santo Agostinho, a partir da substituição da Mata Atlântica pela cultura da cana-de-açúcar, fazendo predominar, na região, a atividade econômica da agroindústria açucareira. Através dessa atividade, começou a verdadeira colonização daquelas terras, assim como a implantação das usinas. A vila do Cabo de Santo Agostinho foi criada por força do alvará de 27 de julho de 1811, e da Provisão Régia de 15 de fevereiro de 1812. Só a partir de 9 de julho de 1877 a cidade tomou o nome de Cabo de Santo Agostinho.

Durante muito tempo, e na maior parte do século XX, o distrito industrial de Pernambuco concentrou-se no município do Cabo, na Região Metropolitana do Recife, porque a capital do Estado não dispunha de um espaço adequado para tal finalidade. O crescimento das regiões urbanas, entretanto, veio provocar uma maior sobrecarga no Porto do Recife, o que contribuiu para se pensar em alternativas portuárias ao sul do litoral. O recôncavo do Cabo de Santo Agostinho, e uma área ao seu redor, foram escolhidos como a melhor e mais próxima opção.

Em 1973/1975, o Governo de Pernambuco concebeu um Plano Diretor e deu início à luta pela implantação de um Complexo Industrial-Portuário no Cabo de Santo Agostinho, uma vez que a própria posição geográfica do Estado, no centro da Região Nordeste, facilitaria a implantação do Porto de Suape. Levou-se em consideração, ainda, três elementos fundamentais: 1. a pouco mais de 1 km do cordão de arrecifes, junto à linha da costa, a localidade possuía águas com profundidade de 17 metros; 2. havia um quebra-mar natural formado pelo cordão de arrecifes; e, 3. existiam na região extensas áreas reservadas à implantação de um grande parque industrial.

Além de tudo isso, Suape localizava-se a, apenas, oito horas das rotas internacionais dos grandes transportadores dos Estados Unidos e da Europa. Desse modo, através da Lei no. 7.763/78, no dia 7 de novembro de 1978, criou-se a empresa Suape Complexo Industrial Portuário. A área destinada ao Complexo abrangia a faixa litorânea entre o rio Jaboatão e a praia de Porto de Galinhas, compreendendo parte dos municípios de Cabo e de Ipojuca.

Para que o mega empreendimento pudesse se concretizar, foram desapropriados cerca de 13.500 hectares de terras. As operações do Porto de Suape tiveram seu início através do Píer de Granéis Líquidos, que foi arrendado à Petrobras, em abril de 1984, quando foi realizado o primeiro embarque de álcool. Nesse mesmo ano, um molhe em pedras foi construído, com o objetivo de proteger a entrada interna do porto. Com a bacia formada depois do molhe, foi implantada a primeira oferta portuária. Ela constou de duas instalações de acostagem de navios - o chamado Píer de Granéis Líquidos (PGL) e o Cais de Múltiplos Usos (CMU). Três anos depois, em 1987, o Parque de Tancagem de Derivados de Petróleo do Porto do Recife foi transferido para Suape; e, em 1991, o Cais de Múltiplos Usos (CMU), que movimenta cargas de conteiners, entrou em operação.

A regularização da situação jurídico-institucional do Porto de Suape, junto ao Governo Federal, por outro lado, efetivou-se mediante o Departamento de Transportes Aquaviários da Secretaria Nacional de Transportes, no ano de 1992. Isso permitiu ao Governo de Pernambuco explorar, comercialmente, aqueles serviços portuários.

Em 1999, ocorreu a construção da primeira etapa do chamado porto interno - 935 metros de cais e profundidades de até 15,5 metros. Dois anos depois, iniciou-se a segunda etapa de construção, através da dragagem de mais de 1 milhão e 300 mil m3. Em seguida, o canal de navegação foi ampliado em mais 450 metros, o que possibilitou a edificação do Cais 4. Em 2002, para atender às novas demandas, empreendeu-se a duplicação da avenida portuária (uma extensão de 4,4 km), e a construção do 1º. Prédio da Central de Operações Portuárias de Suape. No ano seguinte, o Porto recebeu, da Food and Drug Administration (FDA), do Governo dos Estados Unidos, um certificado atestando o seu cumprimento da lei contra o bioterrorismo.

No ano de 2004, foi instalada a Emplal, uma indústira de embalagens plásticas por termoformagem, e inaugurado, também, o Centro de Treinamento do Complexo Industrial Portuário de Suape, um empreendimento voltado para o atendimento dos funcionários das empresas instaladas no Porto, e das comunidades que vivem em suas imediações. Em 2005, foi assinado um acordo entre a Petrobrás e a empresa Petróleos da Venezuela S. A. no sentido de se instalar, em 2007, uma refinaria de petróleo, capaz de processar 200 mil barris de petróleo por dia, de gerar aproximadamente 10 mil empregos durante a sua construção e, ao ser concluída, de abrigar 1,5 mil trabalhadores.

Presentemente, Suape representa o pólo industrial mais completo do Nordeste do Brasil, recebendo, distribuindo e exportando matérias primas, insumos básicos e produtos finais, além de ser incluído entre os 11 portos prioritários do País, e a principal alternativa para o transporte de cargas de e para toda a costa atlântica da América do Sul, com baixos custos de fretes. Além de contar com a presença de mais de setenta empresas (instaladas ou em fase de implantação), possui, ainda, um porto externo, um porto interno, alguns terminais de granéis líquidos, um cais de múltiplos usos, e um terminal de contêineres. Com 16,5 metros de profundidade, o Porto atende a navios de grande porte, movimentando, anualmente, mais de 5 milhões de toneladas de carga, a exemplo de granéis líquidos (derivados de petróleo, álcool, produtos químicos, óleos vegetais, e outros) e cargas conteinerizadas. O Porto possui eficazes sistemas viários, de suprimento de energia elétrica, de abastecimento d´água e de telecomunicações, e realiza, inclusive, as operações de transhipment - que consistem na transferência de cargas, de navios de grande porte, para as instalações portuárias, e o seu posterior reembarque em navios menores.

O Complexo Industrial-Portuário de Suape possui mais de 6.000 hectares sob proteção ambiental e, entre as empresas já instaladas ou em fase de instalação, estão a Aluminic Industrial S/A, a Bonesa Borracha S/A, a Cimec - Cia. Industrial e Mercantil de Cimentos, a Concreto Redimix do NE S/A, a Copagás Distribuidora de Gás Ltda., a Esso Brasileira de Petróleo S/A, a Granex – Granitos de Exp. do NE Ltda., a Indústria de Caixas Plásticas do NE Ltda., a Pedra Cerâmica Santo Antônio S/A, a Petrobrás Distribuidora S/A, a Refresco Guararapes Ltda. (Coca-Cola), a Shell do Brasil S/A, a Termo Fértil S/A, a Transportadora Cometa, e a Work Mariner Ltda.

Por fim, cabe registrar que o Porto de Suape, um dos mais importantes do mundo, opera navios em todos os dias do ano, independentemente dos horários das marés, e dispõe de um sistema de monitoração de atracação de navios a laser, que proporciona um controle mais seguro, tanto para as pessoas quanto para os seus carregamentos.


Fontes consultadas:

ANDRADE, Gilberto Osório de; LINS, Rachel Caldas. Pirapama: um estudo geográfico e histórico. Recife: Editora Massanganam 1984.

BRAGA, João. Guia turístico, histórico e cultural. Recife: Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, 2000.

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal do Recife, 1998.

FORMAÇÃO histórica e geográfica do cabo. Cabo: Departamento de Estudos Sociais, Secretaria de Educação, Prefeitura Municipal do Cabo, 1988.

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.

JORGE, José . Suape, a retomada do desenvolvimento. Brasília: Senado Federal, 2000.

KATER, Maria das Graças L.; BARROS, Maria de Lourdes Osório de. O processo de transferência dos agricultores situados na área de Suape, pertencentes à Cooperativa de Tiriri. In: ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, 6, 1985, Garanhuns, PE. Anais. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1985.

LINS, Rachel Caldas. O cabo e as revoluções pernambucanas. Ciência e Trópico Recife, v. 9, n. 1, p. 67-95, jan./jun. 1981.

MOTTA, Roberto. O povoado de Suape: economia, sociedade e atitudes. Recife, Revista Pernambucana de Desenvolvimento, v. 6, n. 2, p. 209-247, jul./dez. 1979.

O Complexo de Suape. Rio de Janeiro, PlanejamentoP&Ddesenvolvimento, na. 5, n. 56, jan. 1978.

SUAPE: Complexo Industrial Portuário. Disponível em: . Acesso em: 12 jan. 2006.

SUAPE, ecologia e cultura. Recife: Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco/Secretaria de Planejamento/Governo do Estado de Pernambuco, 1978.

SÍTIO DA TRINDADE, Recife

SÍTIO DA TRINDADE

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco


Situado no bairro de Casa Amarela, no Recife, o Sítio da Trindade representou um espaço importante no período da invasão holandesa (1630 – 1654). Ali, naquela área de terreno elevado, existiu o Forte Arraial do Bom Jesus, também chamado de Arraial Velho, que foi construído em taipa de pilão pelo general Matias de Albuquerque, entre 1630 e 1635. O Forte funcionou como um foco de resistência luso-brasileira contra os flamengos. Estes bombardearam e tomaram o Forte no ano de 1635.

Logo após o surgimento do Arraial Velho, o exército montou o seu acampamento nas redondezas, e uma população de cerca de mil pessoas, antigos habitantes de Olinda - que abandonaram as suas casas durante a presença batava – migraram para lá temerosos do que poderia vir a ocorrer. Dentre os residentes, por sua vez, havia um elevado número de eclesiásticos – franciscanos, em particular – que no Arraial erigiram um oratório, para celebrarem missas e empreenderam outros atos religiosos.

Por outro lado, rapidamente também surgiram barracas com vivandeiros, que montaram os seus negócios e, depois, erigiram estabelecimentos comerciais ao redor da fortaleza. Aquele local, para os portugueses, representava um ponto estratégico no sentido de impedir a entrada dos holandeses para o interior, rumo aos engenhos e às plantações de cana-de-açúcar que, na época, representavam as maiores riquezas da capitania de Pernambuco.

Com o aumento da população refugiada, e das crescentes dificuldades para se receber os gêneros alimentícios, todos os bois, cavalos, cães, gatos, entre outros, foram consumidos pelas pessoas famintas. Os especuladores aproveitaram a oportunidade e elevaram tanto o preço dos alimentos que os soldados só podiam consumir uma pequena porção de açúcar, uma espiga de milho e um pouco de farinha de mandioca, por dia.

Há registros, inclusive, de que, por ordem do comandante – o capitão André Marim - alguns comerciantes foram enforcados, uma vez comprovado o fato de que eles estavam tirando proveito daquela situação. No entanto, em decorrência dos ataques sofridos por parte dos inimigos, da falta de armamentos e de uma alimentação adequada, o Forte Real do Bom Jesus, apesar de todos os esforços empreendidos, capitulou em 1635.

Os portugueses levantaram, então, um novo forte, nas imediações da Madalena, que foi denominado de Forte Real do Bom Jesus, mas ficou sendo chamado de Arraial Novo, para se distinguir do anterior. Esse Arraial foi o quartel-general dos restauradores de 1646 a 1654, e, as suas ruínas ainda podem ser observadas na Avenida do Forte, no bairro de Torrões.

Em se tratando do Arraial Velho, alguns moradores voltaram depois àquele lugar, trataram de reparar as casas que haviam sido bombardeadas e construíram outras. Com o passar do tempo, porém, as terras foram divididas em diversos sítios e propriedades, surgindo novas ruas e estradas, assim como novas casas de vivenda.

Posteriormente, as terras do Arraial passaram às mãos da família Trindade Paretti. Por essa razão, o espaço ficou sendo chamado de Sítio da Trindade. Este Sítio possui um chalé com 600 metros quadrados de área construída, e abrange 6,5 hectares de área verde. Nele, algumas placas podem ser observadas. Em uma delas, lê-se:

Caminhando pelas terras deste sítio, estais pisando o solo em que se moveram Matias de Albuquerque e tantos outros heróis da luta contra o invasor.

Na frente de um obelisco de granito, com dois metros de altura - um marco comemorativo que foi inaugurado no dia 30 de janeiro de 1922 – percebe-se uma outra placa:

Aqui existiu o Forte Arraial do Bom Jesus (Arraial Velho) 1630 – 1635. Instituto Archeologico, 1922.

Existe ainda um monumento singelo de cimento, com um medalhão e uma placa, onde se encontra gravado:

Ao eminente naturalista José Pedro de Faria Neves, homenagem do povo do Recife.

Em 1952, o Sítio da Trindade foi desapropriado e declarado como um bem de utilidade pública. E, em reconhecimento à sua importância histórico-social, no dia 17 de junho de 1974, o local foi classificado como um conjunto paisagístico e tombado pelo Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Fontes consultadas:

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Arredores do Recife. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.

RECIFE. Prefeitura da Cidade. O Recife, histórias de uma cidade. In: A CONQUISTA flamenga. Recife, 2000. Fascículo 2.

SINAGOGA ISRAELITA DO RECIFE

SINAGOGA ISRAELITA DO RECIFE

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco


Na primeira década do século XX, existiam somente quatro famílias judaicas no Recife, e elas moravam no bairro da Boa Vista. Conduzidas pelo Sr. Avrum Ishie Vainer, as famílias celebravam suas festas e cultos religiosos, a exemplo do Shabat (o Dia do Descanso), do Rosh Hashaná (o Ano Novo), e do Iom Kipur (o Dia do Perdão), em uma de suas residências, chamada de Sinagoga Sukuron, já que não tinham, ainda, um local específico para funcionar como templo. Seus líderes eram Abraão Josué Vainer (Avrum Ishie Vainer), Abraão Cherpak, Scholem Fainbaum e Elich Foigel.

Nos anos seguintes, com a intensificação das perseguições anti-semitas e a chegada ao Recife de mais imigrantes, principalmente da Europa Oriental - os chamados ashkenazitas, os que falam a língua ídiche - as famílias fizeram dois empreendimentos importantes: 1. adquiriram um terreno para a construção de um cemitério; e 2. formaram o primeiro núcleo institucionalizado da comunidade judaica, o Centro Israelita de Pernambuco.

No dia 20 de julho de 1926, por sua vez, foi fundado um templo judaico no imóvel de número 29, da rua Martins Júnior, no bairro da Boa Vista, que, durante algum tempo, ficou conhecido como Shil Sholem Ocnitzer, em homenagem a um dos seus fundadores. A sua primeira diretoria era assim constituída: Jayme Averbuch (Presidente), Samuel Fainbaum (Vice-Presidente), Maurício Simis (Tesoureiro), Aron Tabatshnik (Vice-Tesoureiro), e J. Fainbaum (Secretário). O local, posteriormente, foi chamado de Synagoga Israelita da Boa Vista; e, a partir de 1987, atualizada a grafia do seu nome, passou a ser Sinagoga Israelita do Recife.

A sua fachada é bem simples, nela observando-se a estrela de Davi, uma estrela de seis pontas que é formada por dois triângulos: um, com a ponta para cima, apontando para tudo o que é espiritual; e, o outro, com a ponta para baixo, apontando para tudo o que é terreno. A estrela de Davi vem sendo utilizada, a partir dos tempos modernos, como o símbolo da identidade judaica.

Na Sinagoga Israelita do Recife, feitos de madeira, estão presentes uma tribuna, um armário com as tábuas de Moisés (entre dois leões), e muitas cadeiras, nas quais podem ser lidos os nomes dos integrantes da colônia judaica, na época. Nas paredes, observam-se alguns cartazes e quadros em hebraico. Um deles, escrito na língua portuguesa, merece destaque:

Deus todo poderoso, Senhor do universo, imploramos a tua bênção e proteção para esta gloriosa Pátria, o Brasil. Dispensa os teus sábios conselhos a seus dirigentes, o dd. Presidente da República, o dd. Governador do Estado e seus colaboradores, para que sigam sempre pelo caminho da justiça e da retidão. Seja da tua vontade abençoar a este País e ao seu Povo com paz e prosperidade eternas.
Amém.

Diferentemente da Sinagoga do Recife – Kahal Zur Israel, a Sinagoga Israelita do Recife não possui uma Micvê – uma espécie de banheira, alimentada por um lençol freático de água límpida e fluente, na qual os judeus tomam o banho ritual e se purificam diante de Deus, em diversas situações.

Cabe informar que a Sinagoga dos sefarditas (os judeus oriundos da Espanha, Inglaterra, Itália, Sul da França, Países Baixos e do norte da África), atualmente extinta, funcionou, durante muitos anos, no imóvel de número 84 da rua da Matriz, no bairro da Boa Vista; e depois se instalou nas dependências do Centro Israelita de Pernambuco, que, até 1950, funcionava na rua da Glória número 215.

Houve ainda um outro templo no Recife, o Shil Chaim Leib Kelner (assim nomeado em homenagem ao seu fundador, o avô do Dr. Salomão Kelner), funcionou entre os anos 1940 e 1965, na casa de número 366, da rua Leão Coroado, também no bairro da Boa Vista.

Fontes consultadas:

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.

KAUFMAN, Tânia Neumann. Passos perdidos, história recuperada: a presença judaica em Pernambuco. Recife: Edição do Autor, 2000.

SINAGOGA Israelita do Recife. Disponível em: Acesso em: 14 jul. 2004.

SINAGOGA DO RECIFE - KAHAL ZUR ISRAEL


A Sinagoga Kahal Zur Israel (ou Congregação Rochedo de Israel) representa um dos marcos mais importantes da presença judaica no Brasil-colônia. Ela está localizada na atual Rua do Bom Jesus, chamada antigamente de Rua dos Judeus, no bairro do Recife, e representou (de 1636 a 1654) a primeira sinagoga oficial dos judeus que habitaram as Américas.

A frente da sinagoga ficava na Rua dos Judeus (Bockestraet) e, anexas, funcionavam duas escolas religiosas (Talmud Torah e Etz Hayim). Após a expulsão dos holandeses, aquela rua passou a ser conhecida como Rua da Cruz, e os prédios do antigo templo e das escolas religiosas receberam o número 26. Somente a partir de 1879, porém, o logradouro vem a ter o nome atual: Rua do Bom Jesus (Kaufman, 2000). Esse nome marcou o retorno do predomínio colonial português.

No início da colonização, bem longe dos autos-de-fé, os lusos interpretavam com um pouco mais liberalidade as severas leis religiosas presentes em Portugal. Sendo perseguidos pelos inquisidores em Portugal e Espanha, os cristãos-novos se refugiavam na América Lusitana, onde o fanatismo religioso era menor, tanto pelo relaxamento dos costumes, como pela necessidade de proteger a colonização. Apesar dessa liberalidade relativa, contudo, a Inquisição não seguia um traçado retilíneo, apresentando sempre marchas e contra-marchas. Desse modo, jamais deixou de estender seus olhos e garras à colônia hebraica brasileira, tendo enviado mais de 500 pessoas a Portugal (Moura, 2002).

Os judeus não convertidos ao catolicismo tinham os seus bens confiscados e/ou recebiam a condenação à morte na fogueira, por traição, heresia, bruxaria, ou por impureza de sangue. Na Bahia e em Pernambuco, nesse sentido, em 1591 e 1618, ocorreram duas visitações do Tribunal do Santo Ofício.

É importante lembrar que muitos colonizadores lusos que vieram para o Brasil no início do século XVI, ou seja, inúmeros degredados portugueses, eram, simplesmente, cristãos-novos ou marranos (os judeus que eram convertidos à força ao catolicismo, mas que praticavam a religião mosaica às escondidas), expulsos de Portugal.

Os ofícios e as ocupações exercidos pelos emigrantes judeus e recém convertidos, segundo Gonçalves de Mello (1979), se apresentavam bem variados: eles eram médicos, advogados, calígrafos, músicos, ourives, ceramistas, intérpretes oficiais, tradutores, donos de engenho, atores, carregadores de navios, compradores de negros escravos, comerciantes de tecidos, roupa, açúcar, alimentos, vinho, madeira, entre outros.

Não podendo recusar trabalhadores, devido à sua escassez, os donatários estenderam às pessoas de origem judaica, inclusive, os favores concedidos às demais, tendo um dos donatários, Duarte Coelho, contratado com hebreus laboriosos a montagem de engenhos de açúcar em Pernambuco, onde eles se dedicaram ao cultivo da cana-de-açúcar e à produção e exportação do açúcar. Logo, há que se admitir a influência judaico-marrana na formação histórica do povo brasileiro.

Devido à tolerância religiosa dos holandeses, frente à prática da lei mosaica, uma parte seleta de judeus/europeus veio se estabelecer no Brasil. A Sinagoga Kahal Zur Israel, portanto, só floresceu durante o período do domínio flamengo em Pernambuco: de 1630 a 1654. A formação inicial do templo contou com 180 associados, representados pelos pais das famílias judias residentes no Recife.

A comunidade judaica se reunia, antes dessa época, na sinagoga Maguen Abraham (Escudo de Abraham), na antiga ilha de Antônio Vaz, depois Maurícia (por não haver sido construída, ainda, a ponte que ligava Maurícia ao Recife), e em pequenas congregações existentes em Itamaracá e na Paraíba. Infelizmente, até hoje não se sabe aonde funcionou tal sinagoga.

Os expoentes da sinagoga Kahal Zur Israel foram o rabino e primeiro escritor judeu das Américas, Isaac Aboab da Fonseca; o chacham (sábio) Moisés Raphael Aguilar; o rubi (professor de escola primária) Samuel Frazão; o bodek (magarefe do abate ritual judaico) Benjamin Levy; e o shamash (bedel) Isaac Nahamias.

Vale registrar que Isaac Aboab da Fonseca nasceu cristão-novo, em 1605, por força do batismo de seus pais. Para professar livremente a religião mosaica, a sua família emigrou para Amsterdã, onde Isaac se tornou rabino. Ele veio para o Recife em 1642, a convite da comunidade judaica pernambucana, ganhando um salário de 1.600 florins, acompanhado pelo chazan (cantor litúrgico da sinagoga) Moisés Rafael de Aguillar. Antes de 1636, a comunidade judaica utilizava a casa de David Sênior Coronel, na Rua dos Judeus, como sinagoga.

Com a expulsão dos holandeses, as sinagogas foram fechadas e o seguimento das leis mosaicas foi proibido, terminantemente. Restou aos judeus, então, uma única alternativa para manter a identidade religiosa: a realização das suas cerimônias dentro das próprias casas. E, para garantir a segurança e a própria vida, a conversão ao catolicismo se afigurava como a melhor saída.

A esse respeito, vale destacar a trajetória de Izaque de Castro, um judeu/holandês que sai de Amsterdam, no século XVII, e vem se estabelecer no Recife. Acusado de judaizar é transportado em ferros para Lisboa. Sem jamais desistir de professar a religião mosaica (repetindo sempre que tinha uma boa crença e não podia apartar-se das leis de Moisés), Izaque de Castro, aos vinte e um anos, recebe a sentença condenatória máxima do Tribunal do Santo Ofício: a de ser queimado vivo em uma fogueira.

Em 1656, o prédio da sinagoga Kahal Zur Israel é doado ao insurreto João Fernandes Vieira. Por sua vez, em 1679, ele e a esposa doam o imóvel aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro. Na Rua do Bom Jesus, até bem recentemente, funcionava no referido prédio uma casa comercial de material elétrico.

Apesar de a sinagoga Kahal Zur Israel ter ficado escondida sob muitos pisos durante séculos, as pesquisas do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e, em particular, as do historiador José Antônio Gonsalves de Mello, asseguraram a existência do templo. Por outro lado, os estudos cartográficos e documentais, feitos pelo arquiteto José Luiz da Mota Menezes, apontaram o lugar exato para o início das escavações arqueológicas.

Em 1997, nesse sentido, o Ministério da Cultura em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) desenvolve o Programa Monumenta: um trabalho arqueológico visando a restaurar e preservar o centro histórico do Recife. Inserida nesse Programa, incluía-se a escavação e recuperação da sinagoga Kahal Zur Israel, cujas ruínas e vestígios deviam estar sob algum piso, em um determinado prédio da Rua do Bom Jesus.

Mediante os esforços de várias entidades, foi firmado um acordo entre o Ministério da Cultura, a Prefeitura do Recife, a Federação Israelita de Pernambuco, a Confederação Israelita do Brasil e a Fundação Cultural Safra. Vale ressaltar, contudo, que essa Fundação financiou as pesquisas e as obras de restauração da sinagoga.

Para se ter conseguido localizar (bem como determinar) as dependências do primeiro templo judaico do hemisfério ocidental, foi preciso remover 750 toneladas de terra e mais de 1000 metros quadrados de reboco. Ao longo dos séculos, os alicerces do prédio haviam sofrido várias modificações, em decorrência dos vários aterros empreendidos para o assentamento da cidade do Recife. Através das escavações verificou-se a existência de 8 níveis distintos de piso, e as obras de restauração ficaram sob a responsabilidade do arquiteto José Luiz da Mota Menezes.

Somente em dezembro de 2001 a sinagoga pôde ser aberta ao público. Os móveis do templo, por sua vez, foram desenhados com base em pesquisas realizadas em algumas sinagogas holandesas do século XVII. A disposição do mobiliário na sala foi feita, também, mediante o mesmo procedimento acadêmico.

Durante as escavações, encontrou-se um precioso material arqueológico: muitos fragmentos de cachimbos holandeses, um pedaço de louça com a menorah, o candelabro judaico de sete pontas, e algumas faianças, louças de barro esmaltado trazidas pelos colonizadores portugueses.

No piso térreo da sinagoga, as pessoas podem apreciar exposições permanentes sobre a cultura judaica e a história da comunidade hebréia em Pernambuco, conhecer como as escavações arqueológicas foram empreendidas, observar o piso original holandês, as várias camadas das paredes, e a muralha de contenção do rio Beberibe. É no térreo que se encontra, ainda, um dos alicerces mais relevantes do templo: o Micvê.

Tal buraco feito de pedras sobre pedras, sem a presença de argamassa, medindo 0,70 m de diâmetro por 1,70m de profundidade, representou a maior de todas as descobertas. Sem essa espécie de banheira, que foi alimentada, no século XVII, por um lençol freático de água límpida e fluente, os judeus não teriam a oportunidade de se purificar diante de Deus em diversas situações. O Micvê foi examinado por um Conselho Rabínico, composto por rabinos do Brasil e da Argentina, e somente após uma rigorosa inspeção ficou comprovada a sua autenticidade, dentro das medidas especificadas nas escrituras sagradas.

Para se ter idéia da importância do Micvê, em uma comunidade judaica, basta dizer que as mulheres só podem ter relações sexuais após o término do período menstrual. Como o fluxo sangüíneo da menstruação é considerado como um elemento impuro, as judias, depois desse período, têm que passar por um determinado ritual de purificação. E este ocorre mediante um banho no Micvê.

No segundo piso - a sobreloja - encontra-se um salão de orações. Esse espaço ficou destinado à realização de conferências e seminários sobre a cultura judaica. A disposição, o formato e o material do teto da sinagoga foram frutos de pesquisas efetuadas junto a sinagogas portuguesas e espanholas do século XVII, e em residências holandesas em Pernambuco.

A arca que contém a Torah (nome dado à lei mosaica e ao Pentateuco) se encontra em frente ao púlpito e, este, em direção ao nascente. O mezanino é repartido em duas partes. Na primeira (supõe-se), está o lugar de onde as mulheres, sentadas em bancos, acompanhavam as cerimônias religiosas; e, na segunda parte, está presente o Centro de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.

Localizado no último piso do templo, o Centro de Documentação congrega as atividades culturais destinadas à preservação da memória judaica, em Pernambuco e no país. O prédio da sinagoga, por ter sido considerado um elemento relevante da memória histórica brasileira, foi inscrito no Livro do Tombo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

FONTES CONSULTADAS:
KAHAL Zur Israel: Congregação Rochedo de Israel: resgate da memória da 1a. Sinagoga das Américas. Recife: Fundação Safra/Centro Cultural Judaico de Pernambuco, 2001.
KAUFMAN, Tânia Neumann. Passos perdidos – História recuperada: a presença judaica em Pernambuco. Recife: Edição do Autor, 2000.
LARGMAN, Esther Regina. Judeus nos trópicos: a comunidade judaica da Bahia de 1912 a 1945. Morashá, São Paulo,a. 10, n. 36, p.49-53, mar. 2002.
______. Aspectos da vida judaica ...sob o domínio holandês. Morashá. São Paulo, a. 11, n. 40, p.59-62, abr. 2003.
LIPINER, Elias. Izaque de Castro: o mancebo que veio preso do Brasil. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Ed. Massangana, 1992.
MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 51, 1979.
MOURA, Hélio Augusto de. Presença judaico-marrana durante a colonização do Brasil. Cadernos de Estudos Sociais, Recife, v. 18, n. 2, p.267-292, jul./dez. 2002.
RIBEMBOIM, José Alexandre. Senhores de engenho: judeus em Pernambuco colonial (1542-1654). Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1998.
SINAGOGA Rochedo de Israel: memória

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

SERRAÇÃO DA VELHA

SERRAÇÃO DA VELHA

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco



O carnaval e os primeiros folguedos carnavalescos foram introduzidos pelos colonizadores portugueses, nos séculos XV e XVI. Dentre os folguedos mais populares, encontrava-se a serração da velha. Em Portugal, ele era encenado na noite da quarta-feira que precedia o terceiro domingo da Quaresma. A serração da velha representava uma espécie de pausa no rigor do jejum e da penitência quaresmal. Neste sentido, os jovens realizavam desfiles nas ruas usando máscaras e fantasias, coletavam dinheiro e doces, declamavam poesias, cantavam e dançavam. Tudo isso, ao som do triquelitraque - um instrumento constituído por uma tábua e várias fileiras de martelinhos que nela batiam, produzindo um barulho sui generis - e de latas arrastadas.

A leitura do testamento da velha era uma prática corrente, levando-se ao conhecimento público os beneficiários na partilha dos bens. Em seguida, um jovem - sempre alguém do sexo masculino - erguia o instrumento de suplício (no caso, o serrote), sobre um pedaço de madeira, de tábua ou um espantalho de pano e, mediante o vai-e-vem do braço, fazia de conta que serrava a velha, enquanto os demais participantes cantavam:

Estamos no meio da Quaresma,
sem provarmos o café,
Vamos serrar esta velha,
para o altar de S. José.

Estamos no meio da Quaresma,
sem vermos nado [sic] do teu amor,
Vamos serrar esta velha,
para o altar de Nosso Senhor.

Ferre-se a velha,
Força no serrote,
Serre-se a velha,
Dentro do pipote.

Esta velha tem malícia,
Esta velha vai morrer,
Venha ver serrar a velha,
Minha gente, venha ver.

Serra, serra, serra a velha
Puxa a serra, serrador,
Que esta velha deu na neta,
Por lhe ouvir falar de amor.

As pessoas que assistiam ao folguedo repetiam: serra a velha, serra a velha, serra a velha! Ou: "serre-se a velha em postas de cinco centímetros".

Ao que o serrador continuava perguntando:

Que castigo merece a velha, dizei-me, senhores?

E o público, como em um julgamento coletivo, respondia:

Serre-se a velha! Força no serrote! Serre-se a velha! Força no serrote!

Às vezes, a folia terminava em tragédia, quando os jovens decidiam “serrar” determinada senhora da localidade, e seus familiares reagiam jogando água quente no grupo. Em Portugal, durante a encenação, era costume se oferecer aos participantes um prato de doces. Então, os jovens agradeciam com aplausos e gritos de alegria, e se dirigiam para outras ruas, repetindo a brincadeira.

A serração da velha representava uma válvula de escape da juventude, frente a determinados pontos que visavam: 1) relaxar o controle dos cardápios dos dias santos, que exigiam os tradicionais jejuns e penitências (o folguedo rompia com a austeridade da Semana Santa, e com o código de restrição alimentar e o jejum conventual, peculiar à Quaresma, em memória ao sofrimento de Jesus Cristo; 2) reivindicar maior liberdade nos namoros - as moças eram muito reprimidas, sendo subjugadas por mães, avós, tias e madrinhas, tidas como guardiãs da honra e dos bons costumes; 3) incentivar o surgimento de um modelo feminino mais libertário, que possuísse mais direitos; e 4) aliviar as tensões sociais existentes entre as gerações.

Não se pode afirmar, com precisão, quando e como essas folias começaram a ser encenadas no Brasil, mas, embora com pouca freqüência, elas foram registradas em crônicas do começo do século XVIII.

Câmara Cascudo (1979) ressaltou a serração da velha no Nordeste, no final do século XIX, afirmando que o folguedo fazia parte do calendário religioso da Quaresma - embora haja indicações de sua ocorrência fora desse período – e que era utilizado, inclusive, com intenções políticas, em demonstrações de desagrado, na residência de algum governante decaído ou candidato derrotado em eleições. De acordo com o folclorista, um grupo de foliões serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha que, representada ou não por algum dos vadios da banda, lamentava-se através de um berreiro ensurdecedor. Câmara Cascudo localizou, também, expressões de desagrado em relação à folia, provenientes de pessoas que se sentiam ameaçadas por ela, e assinalou que, em fins do século XIX, o Código de Posturas de Papari, (hoje, Nísia da Floresta, no Rio Grande do Norte) já proibira sua representação naquela localidade.

Durante os séculos XVIII e XIX, o folguedo era encenado no litoral sul do Rio de Janeiro, e em algumas cidades do interior nordestino. No presente, porém, restam pouquíssimas lembranças dessa folia em pequenos municípios da Região Nordeste. Quando muito, apenas meros resquícios da serração da velha: uns detalhes tão pequenos que o próprio passar do tempo tem se encarregado de eliminar por completo.
Recife, 21 de janeiro de 2008.

Fontes consultadas:

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Melhoramentos; [Brasília]: Instituto Nacional do Livro, 1979.

______. __________.9. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1954.

CARNAVAL. Disponível em:http://www.pime.org.br/missaojovem/mjhistbrasilcarnaval.htm Acesso em: 20 ago. 2007.

COSTA, Suely Gomes. A serração das velhas. Disponível em: Acesso em: 20 ago 2007.

FREGUESIA de parada. Disponível em:. Acesso em: 18 jun. 2007.

NICOLAU, Mário. Justiça popular na calada da noite. Disponível em:http://www.asbeiras.pt/?area=coimbra&numero=13953&ed=19032004 Acesso em: 20 ago. 2007.

PORTUGAL: Alto Minho – Distrito de Viana do Castelo – Concelho de Viana do Castelo – Freguesia de AFIFE. Disponível em: . Acesso em 20 ago. 2007.

A QUARESMA e a Semana Santa. Disponível em:. Acesso em 4 set. 2007.

RITUAIS de vida e morte. Disponível em: Acesso em: 20 ago. 2007.

SERRAÇÃO da velha. Disponível em: Acesso em: 18 jun. 2007.

SERRAÇÃO da velha. Disponível em: Acesso em: 18 jun. 2007.

SERRAÇÃO da velha. Disponível em: Acesso em: 18 jun. 2007.

VAZ, Anabela. Serração da velha juntou mais de uma centena de pessoas. Disponível em: Acesso em: 20 ago. 2007.

SÉ DE OLINDA, Pernambuco

SÉ DE OLINDA (Pernambuco)

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco


O primeiro prédio da Sé de Olinda, construído no período 1537/1540, era simples, mal construído, feito de taipa de mão em estilo barroco, e tendo como patrono o Santíssimo Salvador do Mundo Jesus Cristo. Como o prédio ameaçava desabar, foi edificada, em seu lugar, uma outra construção em estilo gótico, a qual foi concluída em 1584, graças à intervenção do Frei Antônio Barreiro, o terceiro bispo do Brasil. Nesse segundo projeto, foram erguidas várias capelas laterais, como as de São João e a dos Reis Magos.

Em 1591, um pedreiro e mestre de obra lisboeta - Braz da Mata - realizava uma "obra de abóbada" na capela-mor da igreja. Oito anos depois (1599), a nave do templo era ampliada. As obras prosseguiram até 1616, quando o engenheiro Cristóvão Álvares edificava a sacristia e uma barbacã.

Em 1631, como tantos outros monumentos religiosos, a Sé ficou em ruínas após o grande incêndio que houve em Olinda, por ocasião da presença holandesa em Pernambuco. No entanto, o prédio foi reconstruído na segunda metade do século XVII.

Com a criação do bispado de Olinda, em 1676, a Sé foi elevada à posição de catedral. Mesmo assim, em 1689, os religiosos ainda solicitavam aos fiéis que carregassem pedras e outros materiais, no sentido de poderem finalizar as obras. Desta feita, o templo ganhou o adro e o seu muro, assentos e pilastras de pedra, o forro, e a ornamentação de talha dos altares e das fachadas interiores das portas. No cômputo geral, esses trabalhos duraram um século para serem concluídos.

Antes da chegada dos flamengos em Pernambuco, a Sé possuía três naves, uma grande torre do lado sul, e uma capela-mor com cúpula de alvenaria. Em 1630, porém, a igreja foi profanada, tendo sido utilizada, até, como estribaria para os cavalos dos hereges. Naquela época, o seu nome havia mudado para o de Igreja-Matriz de São Salvador do Mundo de Olinda.

Essa construção foi citada em várias obras holandesas. Do mesmo modo, foi detalhada por pessoas que a visitaram antes do incêndio de 1631, ou que se basearam em descrições datadas da primeira metade do século XVII. Dentre tais citações, pode-se destacar aquelas dos flamengos C. Baerle (1923), Joan Nieuhof (1942), e do pintor Frans Post, que retratou o templo como uma ruína cerca de oito vezes.

Vale salientar que, a antiga fachada (desaparecida) da segunda Sé, deu lugar ao prédio atual; e que o terceiro templo - a presente Sé Catedral de Olinda -, foi edificado pelo Arcebispo D. Miguel de Lima Valverde em 1919.

A igreja é dividida em três naves principais, formadas por uma arcada sobre colunas de pedra, que fecham as duas laterais (as capelas de São Salvador do Sacramento e do Santo Cristo) e a capela-mor, onde se encontra o sólio (cadeira) episcopal e as cadeiras dos cônegos, magnificamente entalhadas em jacarandá.

A capela do Santo Cristo é protegida por uma grade de balaustres de jacarandá, torneada até as cornijas das pilastras. O trabalho em talha é muito bom, tendo sido revestidas, as paredes da capela, de alguns painéis a óleo sobre madeira: um deles, representando a oração do Horto; e, três outros, retratando a flagelação de Cristo.

Nas naves laterais, existem cinco altares: dois na parte do Evangelho e, três, na Epístola. Toda a barra do templo foi feita com azulejos portugueses, pintados, representando certos fatos da História da igreja católica. Parte das paredes da antiga catedral, era revestida de azulejos portugueses do século XVII. Da azulejaria antiga, porém, só restaram nove fiadas inferiores (deslocadas) do mural da capela, ao lado do Evangelho. Os especialistas acreditam que, esses azulejos, faziam parte de um grande tapete de padrão policromo de desenho largo.

No interior da igreja, encontram-se colunas e arcos de cantaria. Em sua nave central, observa-se a introdução de aberturas superiores. Este detalhe arquitetônico, desde o início da Renascença, havia sido abandonado dos projetos da maioria das igrejas portuguesas. Dessa maneira, diferentemente dos demais templos lusos, a Sé mantém a tradição românico-gótica, onde a iluminação penetra por pequenas aberturas situadas na parte superior do prédio.

A sacristia do templo é grande e bem ornada, possuindo um móvel de jacarandá, com gavetas almofadadas, para a guarda dos paramentos, que abrange toda a largura da sala. Sobre esse móvel, encostado à parede, há uma peça entalhada em jacarandá, dividida por belas colunas retorcidas com ornamentação, com um nicho no centro e painéis a óleo. Cobrindo as paredes, encontram-se acostadas antigas molduras de jacarandá.

À esquerda da entrada lateral, há um pequeno cemitério privativo da comunidade, com oito sepulturas. Na capela-mor, em particular, descansam os restos mortais dos bispos D. Mathias de Figueiredo e Mello (em sepultura rasa), D. Francisco Xavier Aranha e D. João da Purificação Marques Perdigão (em jazidos existentes nas paredes). No interior da Sé, encontram-se as sepulturas dos seus bispos diocesanos, cujas inscrições foram bastante apagadas pelo tempo.

O teto da igreja é forrado por vinte e quatro painéis que evidenciam algumas passagens do Evangelho, tais como a partida do Egito e o desterro de Nossa Senhora; e, no forro da portaria, vê-se pintada a imagem de São Francisco enlaçando, nos cordões franciscanos, indivíduos de todas as classes sociais.

Teriam participado das obras de reconstrução da igreja o arquiteto Manuel Gonsalves Olinda, responsável pelos projetos de construção das igrejas e conventos Franciscanos de Recife e Ipojuca, e os engenheiros Francisco Frias da Mesquita (de origem portuguesa) e Baccio de Filicaya (de origem florentina).

A Sé de Olinda representou, durante três séculos, o centro da vida religiosa do Estado de Pernambuco.

No presente, o prédio da igreja possui três naves, que estão separadas entre si por colunas toscanas monolíticas. Mas, cabe ressaltar que, por volta do ano 1959, a capela-mor do templo era um viveiro de morcegos, que voavam em bandos quando o lugar recebia visitantes.

Em 1974, a Sé passou por uma nova restauração, desta feita por intermédio do Programa de Restauração das Cidades Históricas, criado pelo Ministro João Paulo dos Reis Veloso; e, em 1976, a Fundação Nacional de Arte de Pernambuco - Fundarpe – restituiu o estilo arquitetônico primitivo do templo.

A localização da Sé, na chapada da mais elevada colina da cidade, é magnífica e imponente. De lá, descortina-se uma bela paisagem, sendo possível visualizar tanto Olinda quanto o Recife. Em volta do templo, há lojas e muitos artesãos que vendem produtos e artefatos regionais - roupas, talhas, pinturas, comida, entre outros.

O espaço em torno da igreja encontra-se bem conservado, contando com vários quiosques de água de coco, e com mulheres, vestidas de baianas, que vendem tapiocas, queijo de coalho frito e bolinhos de acarajés, além de oferecerem outras deliciosas iguarias da cozinha pernambucana. A Sé de Olinda representa um ponto turístico obrigatório, para todos aqueles que visitam Pernambuco.

Fontes consultadas:


ALMANACH de Pernambuco. Recife: Imprensa Industrial, 1914, 17º ano. 1912, 1915.


DUARTE, Luiz Vital. Olinda na formação da nacionalidade. Recife: Imprensa Universitária da UFRPE, 1976.


FREYRE, Gilberto. Olinda: 2º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.


MENEZES, José Luiz da Mota. Sé de Olinda. Recife: FUNDARPE, Diretoria de Assuntos Culturais, 1985.


MUELLER, Bonifácio. Olinda e suas igrejas: esboço histórico. Recife: Livraria Pio XII, 1945.


SÉ. In: GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos. Diccionario chorographico, histórico e estatístico de Pernambuco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1927. v. S a Z. p. 92-101.


SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco preservado. Recife: Edição do Autor, 2002.