sexta-feira, 22 de maio de 2009

WALDEMAR VALENTE

Waldemar Valente
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco




Waldemar Valente nasceu no Recife no dia 9 de fevereiro de 1908. Era o filho único de Ormina de Figueiredo e do jornalista Samuel da Silva Valente. Ainda na adolescência, o jovem obteve a fama de grande conquistador e, muitas vezes, das aventuras amorosas, retornou à sua casa com roupas rasgadas e hematomas visíveis, fruto do ciúme gerado por suas investidas.

Waldemar ia sempre ao Colégio Nóbrega jogar voleibol, participando da Associação Desportiva Acadêmica da escola: um grupo de estudantes ligados ao movimento de renovação católica. Ali, ele se tornou amigo de vários padres jesuítas, a exemplo de Abranches, Lamego, Zacarias e Fernandes. Em decorrência dessa amizade, passou a fazer parte, também, da Congregação Mariana de Moços, onde teve a oportunidade de participar de discussões sobre temas religiosos e culturais.

Aquela Congregação reunia a nata intelectual pernambucana da época: Nilo Pereira, Arnóbio Tenório, Orlando Parahym, Luiz Delgado, Paulo Vieira, Rui Belo, Willy Levin, José do Rego Maciel, Álvaro Lins, Milton Pontes, e tantos outros. Sobre a vivência daquele período, Waldemar escreveu:

Era um pouco céptico e descrente. A idéia de Deus ficava o meu espírito, como coisa vaga e distante. Criado em meio familiar católico, assistia com assiduidade as cerimônias do catolicismo. Mais que tradição social que por uma questão de fé. Os estudos de Medicina, na realidade material da vida humana, sob a influência de professores, devem ter contribuído para aumentar o meu catecismo e minha descrença.

Waldemar Valente se formou em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco e, em Farmácia, pela Faculdade de Formação da mesma universidade. Essas duas formações, contudo, não lhe bastaram: em 1934, ele decidiu estudar Antropologia, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, sob a direção de Roquete Pinto.

Em relação às suas atividades profissionais, vale registrar que, como médico, ele atuou em campanhas de combate à muriçoca; trabalhou para a Inspetoria Nacional de Obras Contra as Secas, no alto sertão de Pernambuco; montou um consultório particular para exercer a medicina; atendeu pacientes em domicílios; e, em uma farmácia, recebeu percentagem pelas consultas lá realizadas.

Contudo, apesar de todos os esforços despendidos com o exercício da medicina, o jovem médico não conseguiu amealhar, mensalmente, o necessário para o sustento de sua família. Sendo assim, ele enveredou por um novo caminho: o magistério. A partir de 1925, passou a se dedicar ao ensino médio. Lecionou inglês, português e biologia, em vários colégios da cidade: Ginásio Pernambucano, Ginásio Oswaldo Cruz, Colégio Nóbrega, Ateneu Pernambucano, Colégio Salesiano, Instituto Nossa Senhora do Carmo, Colégio Marista, Ginásio do Recife, Instituto de Educação de Pernambuco, Colégio Porto Carreiro e Colégio Leão XIII. Posteriormente, voltou-se, também, para o Terceiro Grau, e passou a ensinar na Faculdade de Filosofia do Recife, na Universidade de Pernambuco e na Universidade Católica de Pernambuco.

Ele foi um dos fundadores do colégio Ateneu Pernambucano, tendo dirigido várias entidades e departamentos, tais como o Ginásio Pernambucano; o Departamento de Educação Sanitária e o setor de Bioestatística do Departamento de Saúde Pública de Pernambuco (DSP); e o Serviço de Assistência Médica a Flagelados (com sede em Salgueiro).

Waldemar Valente ingressou no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS), hoje, Fundação Joaquim Nabuco, FUNDAJ, no dia 1 de junho de 1972, tornando-se Diretor do Museu de Antropologia, hoje chamado Museu do Homem do Nordeste. Foi muito amigo de Gilberto Freyre, Mauro Mota e Mário Souto Maior.

Aos poucos, dedicou-se às áreas de Folclore, Etnografia e Antropologia Cultural, e passou a estudar os cultos afro-brasileiros. Tornou-se, posteriormente, Diretor do Departamento de Antropologia.

O antropólogo foi eleito para ocupar a cadeira de número 24, da Academia Pernambucana de Letras, no dia 4 de junho de 1957. Porém, em virtude de atrasos de ordem interna, sua posse só ocorreu em 26 de janeiro de 1959.

Constam do Curriculum Vitae de Waldemar Valente, entre livros, artigos, colaborações em periódicos, e obras coletivas, os seguintes trabalhos: Artigo definido the. Recife, 1930; História da civilização. Recife, 1933;Antropologia em ação. Recife, 1934; História da civilização. São Paulo, 1937;O trovador do Nordeste. Recife, 1937; O povoamento primitivo da América. Recife, 1939;Fundamentos biotipológicos da educação. Recife, 1941; Caminha: o primeiro etnógrafo do Brasil. Recife, 1944; Aspectos da evolução histórica da língua inglesa. Recife, 1944; O povoamento primitivo da América e a teoria do professor Alés Hrdlicka. Recife, 1948; Eutanásia. Recife, 1948; Notas à margem de um problema etnográfico. Recife, 1948; Índice de Manouvrier e sua significação em educação física escolar. Recife, 1948; O critério de forma na metodologia etnológica. Recife, 1949; Introdução ao estudo da antropologia cultural. Recife, 1953; Índices cranianos. Recife, 1954; Marcas muçulmanas nos xangôs de Pernambuco. Recife, 1954; Sincronismo religioso afro-brasileiro. São Paulo, 1955; A função mágica dos tambores. Recife, 1956; Influências islâmicas nos grupos-de-culto afro-brasileiros de Pernambuco. Recife, 1957; Islamismo em Pernambuco. Recife, 1957;Maria Graham – uma inglesa em Pernambuco nos começos do século XIX. Recife, 1957; Um ensaio do professor Amaro Quintas. Recife, 1958;O negro nas crônicas holandesas do século XVII. Recife, 1958; Misticismo e religião (Aspectos do sebastianismo nordestino). Recife, 1963; Gilberto Freyre: um livro de estréia. Recife, 1964; Influências daomeanas nos grupos-de-culto afro-nordestinos. Recife, 1966; Panteísmo em Pernambuco. Recife, 1966; O Padre Carapuceiro (crítica de costumes na primeira metade do século XIX). Recife, 1969; Survivances dahomenas dans les groups-de-culte africains du nordest du Brésil. Dakar, 1969;S errinha (aspectos antropossociais de uma comunidade nordestina). Recife, 1973; Antecipação de Pernambuco no Movimento da Independência (testemunho de uma inglesa). Recife, 1974; O japonês no Nordeste agrário. Recife, 1978; (traduzido para o japonês)Xangô: um ritual afro-brasileiro de Pernambuco. Recife, 1982; A litolatria no folclore nordestino. Recife, 1983; Mauro Mota não morreu. Recife, 1984; Misticismo e religião. Recife, 1984; Bandeira, pintor. Recife, 1984; Presença de Silvio Rabelo. Recife, 1984; Nordeste em três dimensões. Recife, 1986; Aspectos espirituais da presença africana no folclore nordestino. Recife, 1986.O inhame. Recife, 1987; Jogo do pião. Recife, 1987; Antologia pernambucana do folclore (com Mário Souto Maior). Recife, 1988; Histologia da poesia popular de Pernambuco. Recife, 1989; A Dama de Ouro. vol. 1. Recife, 1990. (autobiografia).
Waldemar Valente casou-se duas vezes. A primeira delas, com Berenice Galvão de Figueiredo, com a qual teve sete filhos; e, a segunda, com Marilene Torquato dos Santos, que lhe deu oito filhos.

Um fato ocorrido no âmbito familiar transtornou os últimos anos de vida do antropólogo: Ana Maria, uma de suas filhas mais novas, foi diagnosticada portadora de leucemia. Após alguns anos de luta, a adolescente viajou para São Paulo, para realizar um transplante de medula (cedida por seu irmão). Era a última tentativa de salvar a própria vida. A despeito de o procedimento cirúrgico ter sido bem sucedido, a doença não pôde ser debelada, e a linda Aninha do Dr. Waldemar não sobreviveu muito tempo.

Depois de sua morte, o antropólogo perdeu o elã de viver. Continuou trabalhando no Departamento de Antropologia da FUNDAJ, mas, foi definhando dia após dia, e faleceu no dia 27 de novembro de 1992, aos 84 anos de idade. Waldemar Valente era um gentleman e um erudito simples. Além de importantes pesquisas antropológicas e etnológicas, ele deixou muitas saudades.

Fontes Consultadas:
TÁVORA, José Geraldo. Presença médica na academia pernambucana de letras: (1921 - 1995). Recife: Universitária, 1996.
VALENTE, Waldemar. Pastoris do Recife antigo e outros ensaios. Organização e apresentação de Mário Souto Maior. Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1995.

PATATIVA DO ASSARÉ

PATATIVA DO ASSARÉ

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco



Segundo filho de pequenos proprietários rurais do sertão do Cariri, Antônio Gonçalves da Silva, chamado de Patativa do Assaré, nasceu no dia 5 de março de 1909, na Serra de Santana, uma localidade situada a dezoito quilometros do município de Assaré, ao sul do Estado do Ceará.

Em conseqüência de uma doença, Antônio perdeu o olho direito aos quatro anos. Aos oito anos de idade, depois da morte do seu pai começou a trabalhar na pequena agricultura familiar.

Cursou quatro meses de escola, apenas, mas conseguiu se alfabetizar aos doze anos, através do manual do aluno sertanejo, uma cartilha de Felisberto de Carvalho. Ressaltava sempre: Eu aprendi com a natureza que é caprichosa. Sua mãe sempre lhe contava estórias e canções populares, e seu irmão mais velho gostava de ler os folhetos de literatura de cordel, vendidos nas feiras. Irrompeu-lhe, dessa forma, o veio poético.

Amante ardoroso da leitura, Antônio entrou em contato com as obras de alguns poetas importantes, como Olavo Bilac, Castro Alves e Carlos Drummond de Andrade. Leu, também, vários escritores clássicos, como Graciliano Ramos, Machado de Assis, e, até mesmo, o poeta português Luis Vaz de Camões. Sobre isto, ele falava: Eu li Camões, eu sou atrevido.

Na adolescência, convenceu a mãe a vender uma ovelha para que pudesse comprar uma viola de dez cordas. Com o instrumento musical, começou a fazer improvisações pelas redondezas, se apresentando em aniversários, comemorações de santos, festas de casamentos, entre outras datas importantes. É ouvindo os folhetos de cordel que Antônio teve a certeza de poder criar poesias.

O pseudônimo Patativa surgiu quando um escritor cearense - José Carvalho de Brito -, fez uma alusão dos versos do poeta à pureza do canto da patativa, um pássaro do Nordeste brasileiro. Além disso, para destacar Antônio Gonçalves da Silva, como o poeta popular de toda a região, adicionou-lhe, ainda, o nome Assaré.

Em 1936, Patativa casou-se com Belarmina Paes Cidrão, a dona Belinha, e com ela teve nove filhos, dois morreram, ficaram três mulheres e quatro homens. Foi morar na Rua Coronel Pedro Onofre, em Assaré, onde comprou uma casa perto da igreja-matriz, porque sua esposa era muito religiosa.

Certa vez, tendo se apresentado na Rádio Araripe, recebeu um convite de um de seus ouvintes - José Arraes de Alencar - para intermediar a publicação de suas obras junto a uma editora do Rio de Janeiro. Em 1956, surgiu a primeira edição do seu livro: Inspiração nordestina. A antologia fez bastante sucesso e, em 1966, foi tirada uma segunda edição, enriquecida por novos textos: Cantos da Patativa. O poeta viajou para o Rio de Janeiro, permanecendo, lá, quatro meses.

Outra coletânea de versos foi publicada em 1970, através do professor José de Figueiredo Filho, que escreveu, inclusive, alguns comentários sobre Patativa do Assaré. Em 1978, a Editora Vozes publicou seu livro Canta lá que eu canto cá. E, em 1988, lançou uma nova antologia de textos - Ispinho e Fulô - sob a direção de Rosemberg Cariry. Quando completou 86 anos, a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, em sua homenagem, publicou uma nova coletânea de textos: Aqui tem coisa.

Sobre as filhas tão queridas, ele escreveu:

Minhas filhas eu vejo que são três
e cada qual é da beleza irmã
se eu quero Lúcia, muito quero Inês
da mesma forma quero Miriam.
Vendo a meiguice da primeira filha
vejo a segunda que me prende e encanta
a mesma estrela que reluz e brilha
se olho a terceira, vejo a mesma santa.
Se a cada uma com fervor venero
fico confuso sem saber das três
qual a mais linda e qual eu mais quero
se é Miriam, se é Lúcia ou se é Inês.
E, já velho, a pensar de quando em quando
eu brevemente voltarei ao pó
eu sou feliz e morrerei pensando
que as três filhas que eu tenho é uma só.

Devido à sua prodigiosa memória, desde cedo, Patativa do Assaré descobriu sua vocação poética, porém retinha tudo na mente, pouco escrevendo. Enalteceu a prática da leitura. Afirmou gostar de ler pelo simples prazer de aprender: com a prática de ler a gente vai descobrindo e sabe que nem pode dizer tu sois e nós é.

Luiz Gonzaga gravou dele a música A triste partida. O poeta admirava muito o grande cantor nordestino, e salientava que ele jamais mudara a linguagem cabocla, apesar de conviver com uma classe social privilegiada.

Patativa foi um agricultor que trabalhou com as mãos na enxada, produziu milho, feijão, mandioca, macaxeira, e enfrentou os mesmos dramas dos demais sertanejos, com uma diferença: produziu poesia e elaborou a rima métrica em sua própria memória. Ele discorreu sobre a seca, a reforma agrária, o sertão, a política, o cotidiano, enaltecendo uma sociedade mais justa e solidária. Chegou a ser perseguido pela Ditadura Militar, que governou o Brasil depois do Golpe de 1964. Em uma parte do poema O Agregado e o Operário ele declarou:

...Sou poeta agricultor
do interior do Ceará
a desdita, o pranto e a dor
canto aqui e canto acolá
sou amigo do operário
que ganha um pobre salário
e do mendigo indigente
e canto com emoção
o meu querido sertão
e a vida de sua gente.

Patativa criou também o poema Emigração e as conseqüências, onde ressalta:

A fome é o maior martírio
Que pode haver neste mundo,
Ela provoca delírio
E sofrimento profundo
Tira o prazer e a razão
Quem quiser ver a feição
Da cara da mãe da peste,
Na pobreza permaneça,
Seja agregado e padeça
Uma seca no Nordeste.

Patativa do Assaré publicou seis livros: Inspiração nordestina, Cantos de Patativa; Cante lá que eu canto cá, filosofia de um trovador nordestino; Ispinho e fulô; Aqui tem coisa; Cordéis Juazeiro do Nordeste e Balceiro. Todas essas obras foram publicadas com incentivos de seus próprios admiradores.

O poeta sertanejo foi homenageado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), participou da luta pela Anistia, chegou a ganhar comendas e o título de Doutor Honoris Causa em quatro universidades, foi difundido pelos meios de comunicação de massa, e tornou-se amigo de Darci Ribeiro. Sua obra rendeu inúmeros estudos em universidades brasileiras, além de teses acadêmicas na Sorbonne (França). Mesmo cego, jamais deixou de produzir.

Ao completar 90 anos, o município presenteou-lhe o Memorial Patativa do Assaré. O prédio tem três pavimentos, 489,90 m2 de área construída, e contém salas de vídeo, de exposições, biblioteca, cantina, auditório com capacidade para oitenta e oito pessoas, entre outros. Todo esse acervo vem sendo gerido pela Fundação Memorial Patativa do Assaré.

Sobre a velhice, escreveu Réplica de um Cabelo Branco:

A um cabelo branco de vergonha
lhe disseram os pretos
não se oponha
você nos causa um sofrimento atroz
se retire, saindo da cabeça
e o mais breve daqui desapareça
não queremos você perto de nós.
O bom cabelo, muito inteligente
tendo tudo gravado em sua mente
julgando a vida do começo ao fim
falando sério contra a rebeldia
com a verdade da filosofia
para os pretos cabelos disse assim:
‘a natureza é protetora e franca
e quando ela me deu essa cor branca
um grande insulto cada qual me fez
mas cada um será bem castigado!
pois mereço ser muito respeitado!
sou começo da estrada de vocês!’

Registrou, ainda:

Conheço que estou no fim
e sei que a terra me come
mas fica vivo o meu nome
para os que gostam de mim.

O canto de Patativa do Assaré se extinguiu no dia 8 de julho de 2002. Após a falência múltipla dos seus órgãos, o mais famoso poeta popular nacional, aos 93 anos de idade, descansou em paz. Bem antes de partir, entretanto, já havia se tornado um imortal.

Fontes consultadas:

ASSARÉ, Patativa. Digo e não peço segredo. São Paulo: Escrituras, 2001.

CARVALHO, Eleuda. Cantiga de pé-quebrado ao poeta passarinho. Continente Multicultural, Recife, a.2, n. 20, p.34-35, ago. 2002.

CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré: poesia, profecia e performance. Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 30, n. 1/2, p.28-36, 1999.

______. Aboio para o poeta camponês. Continente Multicultural, Recife, a. 2, n. 20, ago. p. 32-33, 2002.

ODE à metrica e à rima. O Povo, Fortaleza, 3 mar. 1999. Caderno Vida & Arte, p. 6B.

PATATIVA do Assaré: uma voz do Nordeste. Introdução e seleção Sylvie Debs. São Paulo: Editora Hedra, 2001.

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

quarta-feira, 20 de maio de 2009

ZEPELIM

ZEPELIM

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Os zepelins eram balões dirigíveis que se assemelhavam a enormes charutos, e as suas viagens representavam verdadeiras atrações, que eram aguardadas com ansiedade pela população. Finalmente, o ser humano havia conquistado um dos seus antigos e maiores sonhos: o poder de voar. Vale registrar que a utilização do gás hélio (um gás não inflamável) possibilitou o surgimento da era dessas aeronáveis.

O inventor do balão dirigível foi o conde alemão Ferdinand Adolf Heirinch von Zeppelin (1839 -1917). No dia 2 de julho de 1900, com uma aeronave impulsionada por dois pequenos motores, o conde conseguiu sobrevoar o lago Constanza, na fronteira da Alemanha com a Suíça.

Por conta desse feito extraordinário na História da Aviação, os dirigíveis ficaram sendo chamados até o presente de zepelins, o mesmo nome do seu inventor.

O sucesso dos balões dirigíveis levou à fundação, na Alemanha, da primeira companhia aérea de transportes de cargas e de passageiros: a Deutsche Luftschiffahrts Aktein Gesellchaft (DELAG).

Nas primeiras décadas do século XX, os alemães haviam lançado os seguintes dirigíveis, como o ápice deus avanços tecnológicos: o "Graf Zeppelin" (em 1928) e o "LZ 129 Hindenburg" (em 1936). Possuindo interiores extremamente confortáveis, e com capacidade para enfrentar as travessias transoceânicas, eles funcionavam como verdadeiros hotéis flutuantes.

Em se tratando da segurança dessas aeronaves vale lembrar que, no dia 6 de maio de 1937, em Lakehurst, nos Estados Unidos, houve um acidente fatal com o "Hindenburg".

Por apresentar uma posição geográfica privilegiada no Nordeste do Brasil, a cidade do Recife foi escolhida para abrigar a primeira base operacional dos dirigíveis "Zeppelin" e "Hindenburg". Para tanto, construiu-se em Jiquiá um Parque de Aerostação, com uma torre de atracação de 16 metros de altura. Era a primeira estação aeronáutica para dirigíveis da América do Sul e tinha uma função semelhante a dos faróis.

No dia 22 de maio de 1930, quando um desses grandes peixes-voadores chegou em Recife pela primeira vez, o fato teve tamanha relevância que Estácio Coimbra, governador de Pernambuco naquela época, decretou feriado estadual. E o dirigível terminou pousando no Campo dos Dirigíveis do Jiquiá.

Durante os anos seguintes (1930 a 1937), os zepelins não deixaram de cruzar os ares entre a Alemanha e o Brasil: saiam de Friedrichshafen e faziam escala em Recife. Nesse período, o "Graf Zeppelin" realizou sessenta e cinco viagens, e o "Hindenburg" empreendeu duas. E essas aeronaves pousaram oito vezes em Jiquiá.

Os zepelins faziam tanto sucesso que, em certa ocasião, Ascenso Ferreira chegou a escrever um poema sobre eles:

Graf Zeppelin

W Z! K D K A! U Z Q P!

· Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!

· Usted me puede dar nuevas del Zeppelin?

· Dove il Zeppelin?

· Where is the Zeppelin?

· Passou agorinha em Fernando de Noronha.

· Ia fumaçando!

· Chegou em Natal!

(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)

· Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!

· Rádio, rádio, rádio!

W Z - Q P Q P – G Q A A ... = Jiquiá!

· Apontou!

· Parece uma baleia se movendo no mar.

· Parece um navio avoando nos ares.

· Credo, isso é invento do cão!

· Ó coisa bonita danada!

· Viva seu Zé Pelin!

· Vivôôôô!

· Deutschland über alles!

· Atracou!

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

Saudade: - "Olá, seu Ferramenta,

Você sobe ou se arrebenta!"

Vale salientar que Augusto Severo foi um aeronauta potiguar, morto em 1901 em decorrência da explosão, no ar, do balão "Pax" que o conduzia. O aeroporto de Natal possui o seu nome em uma justa homenagem. E, Ferramenta, trata-se de um capitão luso que, no ano de 1905, subiu aos céus em um outro balão.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), por ocasião do bombardeio de Londres, o zepelim foi utilizado pelos alemães como arma de guerra. Na Segunda Guerra Mundial, por sua vez, essa aeronave foi usada em operações de patrulha e resgate.

De conformação telescópica e com 19 metros de altura, a Torre do Zepelim se encontra, presentemente, em uma área sob jurisdição militar. Em 1982, essa antiga atração foi tombada pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - FUNDARPE. Hoje, ela representa a única torre para dirigíveis existente em todo o mundo.

Um ano antes disso, contudo, sob o patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco, da Empetur, da Varig e da Administração do Aeroporto de Frankfurt (Alemanha), os sete ex-integrantes da tripulação do "Zeppelin" visitaram aquela torre.

Em 1997, a Alemanha construiu o LZ N 07, o mais novo membro da família Zeppelin e integrante da quarta geração dos dirigíveis de alta tecnologia. A aeronave foi desenvolvida pela Zeppelin Luftschifftechnik GmbH, em Friedrichshafen, e deverá ser empregada em vôos científicos, publicitários e turísticos.

Fontes consultadas:

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.

PROJETO:Recife-Cidade do Zeppelin. Recife: Grupo Zeppelin, 1997. Mimeografado.

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

VITÓRIA-RÉGIA

VITÓRIA-RÉGIA

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

A vitória-régia é uma das maiores plantas aquáticas do mundo. Originária da região amazonense, ela pertence à família das Nynphaeceae. Por se tratar de uma planta ornamental exuberante, os europeus chamaram-na de rosa lacustre. E quando um pesquisador inglês levou as suas sementes para plantar, nos jardins do palácio real, os próprios ingleses denominaram-na Vitória, em homenagem à sua querida rainha. Cabe registrar que os indígenas chamam-na de Uapé, Iapucacaa, Aguapé-assú, Jaçanã, ou Nampé; e, os índios guaranis, de Irupé.

As folhas da vitória-régia possuem as bordas dobradas, são grandes e flutuantes, apresentam-se no formato de um círculo, e algumas chegam a cobrir uma superfície de três metros quadrados. Além disso, se o peso for bem distribuído, elas são capazes de suportar uma carga de até quarenta quilos, sem afundá-la na água. Na Região Norte, as garças, os maguaris e várias outras aves, passeiam tranqüilas sobre os seus largos mantos verdes.

Nos meses de janeiro e fevereiro brotam as flores da vitória-régia. Elas são brancas ou rosadas, possuem várias camadas de pétalas, e abrem somente durante a noite, exalando um perfume maravilhoso. Algumas flores atingem trinta centímetros de diâmetro e, no meio delas, observa-se um botão circular onde se localizam as sementes.

As enchentes e inundações do rio Amazonas beneficiam muito a vitória-régia. À medida que as águas vão subindo, crescem também os seus pecíolos [hastes]. Por vezes, eles ficam longuíssimos, medindo até cinco metros de comprimento. Caso o nível das águas permaneça alto, a vitória-régia viverá cerca de dois anos; mas, se as águas baixarem, ela, aos poucos, irá sucumbindo.

Em relação à vitória-régia, no Norte, existem vários mitos e lendas que são narrados por sábios pajés e índias idosas. Reunidos à noite, eles repassam, oralmente, a sua cultura milenar. Alguns contam, por exemplo, que tudo começou com a índia Naiá. Ela era apaixonada pela Lua - considerada um deus masculino, um jovem e bonito guerreiro - e não aceitava namorar os outros índios. Passava as noites correndo pelas matas, perseguindo o noivo celestial, e não havia poção milagrosa capaz de curá-la de tal obsessão.

Certa vez, estando à beira de uma lagoa, Naiá viu a imagem do seu amado refletida nas águas. Sem titubear nem um segundo, mergulhou ao seu encontro e morreu afogada. Sensibilizada com o fato, a Lua procurou compensar o sacrifício de Naiá, e transformou-a em uma estrela das águas, um verdadeiro poema de beleza e perfume. Depois disso, dilatou a palma de suas folhas, para que pudessem receber melhor os afagos de sua luz. E, para acolher os raios de luar - em verdade, os seus beijos apaixonados - a Lua fez com que as flores da vitória-régia abrissem somente à noite, exalando um aroma maravilhoso.

De acordo com uma outra versão dessa lenda, dizem que a Lua tinha poderes extraordinários para transformar as índias em estrelas. E havia uma índia que desejava muito se transformar em uma estrela, para poder ficar mais perto da Lua, sua grande paixão. Tentando alcançá-la, subia nos morros e montanhas chamando por ela: Iaci! Iaci! Porém, todos os seus esforços eram inúteis. Certo dia, a índia percebeu não somente o reflexo da Lua, como ouviu o seu canto, oriundo das profundezas das águas. Crendo ser o amado lhe chamando, atirou-se no igarapé e nunca mais retornou à superfície. Compadecida com a sua falta de sorte, a Lua transformou-a, então, em uma bela estrela d´água na Terra.

De uma outra variação dessa lenda foi elaborado, inclusive, um roteiro para o teatro. Os protagonistas da história são a Lua, um bonito guerreiro chamado Jacy; a planta aquática Uapé; e uma cunhã, uma jovem índia chamada Naiá, que vivia como as demais mulheres da aldeia, cozinhando, tecendo, trabalhando a mandioca, cuidando de crianças, modelando vasos de barro e que, ao final das tardes, se deitava na rede e adormecia olhando o céu.

Certo dia, quando Naiá se deitou, percebeu as estrelas no céu pela primeira vez. Nessa atitude contemplativa, descobriu também a Lua - um belo guerreiro - e, a partir desse momento, desejou ser uma estrela. Quando a noite chegava, ela corria para as margens do rio, olhava para cima e via o amado brilhando entre as estrelas. Daí, apaixonada e feliz, começava a cantar e a chamar por ele. Passava horas e horas admirando o firmamento, na tentativa de visualizar o rosto do bem amado.

Os meses se seguiam e Naiá continuava buscando os raios da Lua, sem nunca dela conseguir se aproximar. Cantava todas as noites, às vezes subia ao topo de uma árvore, para tentar tocar no jovem guerreiro, mas este permanecia distante e silencioso. Certo dia, sempre cantando e dançando, ela entrou em um lago claro como um espelho. Molhou os pés, as pernas e, em seguida, abraçou o reflexo de Jacy, que jazia na água. Enfim, pensou a índia, o meu amado desceu à Terra para banhar-se comigo neste lago. Assustada, a tribo observava o comportamento de Naiá. Um dos índios, inclusive, tentou impedi-la de entrar na água, mas ela foi mergulhando, mergulhando, e em pouco tempo desapareceu, morrendo afogada.

Olhando para o local, depois do ocorrido, os indígenas viram surgir uma luz na superfície do lago. Essa luz foi se transformando em pequenas folhas redondas, que cresceram até ficar bem grandes, como se fossem uma bandeja verde. Em seguida, apareceu uma pequena pétala branca, que foi aumentando de tamanho, e surgiram outras pétalas que formaram uma linda flor. A estrela branca se abriu e perfumou todo o ambiente: era a flor da noite. Cheia de remorsos, a Lua havia transformado a jovem morta em uma estrela do rio Amazonas. Ou seja, Jacy transformara Naiá em Uapé.

E, desde sempre, quando a Lua ilumina as águas dos rios, lagoas e igarapés, Uapé abre as suas pétalas para receber todo o carinho do amado. Porém, quando o dia começa a clarear, ela se fecha. Abre-se em sua plenitude máxima somente nas noites de Lua cheia, quando o céu sobre a selva amazônica está claro e sem nuvens. Naiá se transformou, definitivamente, na gigante e bela flor das águas, permanecendo, ao longo dos tempos, como a rainha das plantas aquáticas.

Além de conter beleza e perfume, a vitória-régia possui uma raiz - um tubérculo parecido com o inhame - que é consumida pelos nativos em sua alimentação. Eles chamam-na “forno-d’água”, por sua semelhança com um tacho de torrar farinha. Por sua vez, os indígenas extraem o sumo dessas raízes (uma tintura preta) e usam-no para pintar os seus cabelos.

É interessante registrar que as cápsulas da vitória-régia, repletas de sementes, vão se depositar no fundo das águas, a cada mês de agosto. A partir daí, na medida em que recebem a ação dos raios solares, elas se enterram no lodo cada vez mais e endurecem. Tais sementes representam uma fonte de alimento para os índios. E as aves da região também as apreciam. Estas últimas, por fim, voando em bandos, espalham as sementes da vitória-régia por todos os lugares onde passam. Dessa maneira, elas perpetuam a existência da rosa lacustre: a mais linda deusa vegetal e estrela das águas.

Fontes Consultadas:

AMARAL, Rita de C. P.; ITTNER, Tânia R. C.; BAHER, Vivien I. Coleção: folclore em atividades. Blumenau: Edições Sabida, s.d.

ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil folclore; histórias, costumes e lendas. São Paulo: Editora Três, 1982.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações S. A. 9. ed. 1954.

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HORTA, Carlos Felipe de Melo Marques (Org.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Leitura, 2000.

RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1970.

VITÓRIA-RÉGIA. Disponível em: Acesso em: 26 de junho de 2006.

VITÓRIA-RÉGIA. Disponível em: Acesso em: 19 jul. 2006.

VITÓRIA-RÉGIA. Disponível em: Acesso em: 21 jul. 2006.

VITÓRIA-RÉGIA (Mitologia). Disponível em: Acesso em: 19 jul. 2006.

VITÓRIA-RÉGIA (Botânica). Disponível em: Acesso em: 19 jul. 2006.

VOLPATTO, Rosane. Vitória Régia, a deusa vegetal. Disponível em: Acesso em: 19 jul. 2006.

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

UIRAPURU

UIRAPURU

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

O Uirapuru é um pássaro irrequieto e pequeno: mede somente uns 12,5cm de comprimento. O seu nome científico é Cyphorhinus aradus e ele pertence à família das Troglodytidae. Alimenta-se basicamente de frutas e insetos e o seu habitat natural são as matas e florestas da Amazônia. O visual do Uirapuru não é atraente: ele possui uma plumagem pardo-avermelhada, ou verde-oliva com a cauda avermelhada, um bico forte e pés grandes. Os índios chamam-no Irapuru ou Guirapuru, que significa pássaro ornado, pássaro emprestado, ou pássaro que não é pássaro, e cuja missão é a de presidir o destino dos outros pássaros. O seu canto é extremamente belo e quando ele emite sons musicais, todas as outras aves, como que enfeitiçadas, se calam para ouvi-lo.

Câmara Cascudo ressaltou que o primeiro estrangeiro a ouvir o canto do Uirapuru e a registrar sua melodia foi o botânico Richard Spruce, em uma excursão ao rio Trombetas, na metade do século XIX. Segundo esse pesquisador, o Uirapuru cantava para todo o mundo como uma caixa de música:
eram inconfundíveis os claros sons metálicos, exatamente modulados como por um instrumento musical. As frases eram curtas, mas cada uma incluía todas as notas do diapasão, e depois de repetir a mesma frase umas vinte vezes, passava subitamente para outra, de quando em vez com a mudança de clave de uma quinta-maior, e prosseguia por igual espaço. Normalmente fazia uma breve pausa, antes de mudar de tema. Eu já o escutava, há bastante tempo, quando me ocorreu a idéia de fazer a transcrição musical... Simples como é, esta música era vinda de um músico invisível no fundo da mata selvagem, de uma magia que me encantou quase uma hora. Então, bruscamente, parou, para recomeçar tão longe que mal pude percebê-la a extinguir-se (p. 888).

No Norte do Brasil, existem várias lendas sobre o Uirapuru. Uma delas salienta que um jovem guerreiro se apaixonou pela esposa de um cacique. E, como não podia se aproximar dela, solicitou ao deus Tupã que o transformasse em pássaro. Tupã prontamente atendeu ao seu pedido. Notando, porém, que havia um determinado pássaro cantando todas as noites para a sua amada, o cacique passou a persegui-lo, com a intenção de prendê-lo. O pássaro, no entanto, voou para dentro da floresta, e o cacique não conseguiu acompanhá-lo. Todas as noites, então, o Uirapuru retorna e canta para a esposa do cacique, desejando que ela o descubra através do seu belo canto.

Uma outra lenda corrente ressalta que, em uma tribo, havia duas índias apaixonadas pelo mesmo cacique. Sabendo disto, ele prometeu casar com a que tivesse a melhor pontaria na flecha. E assim ocorreu. Acontece que a índia perdedora - Oribici - chorou tanto que suas lágrimas chegaram a formar uma fonte e um córrego. Por outro lado, ela percebeu que o cacique amava muito a sua esposa. Daí, ela decidiu se resignar com a falta de sorte e não disputar mais aquele amor. O grande deus Tupã, entretanto, compadecido com o pesar de Oribici, transformou-a em um pássaro, para que, do alto, ela pudesse sempre ver o seu amado. Além disso, deu-lhe também um canto belíssimo, capaz de enfeitiçar todos os outros pássaros da floresta, compensando-a assim pelo amor que ela não pôde ter.

Uma terceira lenda destaca que a flecha de uma donzela apaixonada atingiu um pássaro de plumas vermelhas e de canto perfeito, transformando-o em um guerreiro forte e belo. Havia, porém, um feiticeiro - aleijado e muito feio - que amava aquela donzela e sentia ciúmes do guerreiro. Sendo assim, ele tocou uma determinada música, com sua flauta encantada, e fez com que o guerreiro desaparecesse para sempre. A partir desse dia, só restou o lindo canto do guerreiro nas matas e florestas da Amazônia. Segundo a lenda, trata-se do próprio Uirapuru.

Em relação a esse pássaro, portanto, o real e o lendário parecem se confundir. Os pesquisadores afirmam que ele nunca repete as mesmas frases musicais e, por essa razão, é considerado pelos nativos como um ente sobrenatural. Depois de morto, não somente o seu corpo, mas algumas partes dele, ou do seu ninho, são considerados talismãs, sendo muito procurados no mercado. Para os índios tupis, em verdade, o Uirapuru representa um deus que adquiriu a forma de pássaro. E, no estabelecimento comercial que tiver seu amuleto, muitas pessoas serão atraídas. Acreditam, também, que ele proporciona felicidade: o homem que carregar uma simples pena dele tornar-se-á irresistível para as mulheres e terá muita sorte nos negócios. Por sua vez, a mulher que conseguir um pedaço do seu ninho conseguirá viver com o homem amado, e este se manterá fiel e apaixonado para todo o sempre. Além disso, quem puder ouvir o canto desse pássaro deverá, imediatamente, fazer um pedido porque ele será realizado.

Cascudo registrou que “não há no Pará, no Maranhão e Amazonas muitos taverneiros que não tenham na soleira da porta enterrado um Guirapuru, a quem atribuem a virtude de conduzir fregueses à sua taverna. Um Guirapuru, por este motivo, custa caro... Muitos comerciantes compram tais amuletos apenas para deixá-lo em uma gaveta do estabelecimento, ou mesmo enterrá-lo na soleira da porta, acreditando que o mesmo atrairá fregueses. Vale informar, porém, que é dificílimo se adquirir uma pena do Uirapuru, porque os outros pássaros sempre o avisam da presença de predadores e ele voa para bem longe. Só se adquire as penas velhas, quando estas se soltam naturalmente do seu corpo e caem ao chão.

Ainda de acordo com o folclorista, a posição em que cai o uirapuru, ao ser abatido, indica o sexo que o deve utilizar como amuleto: caindo ressupino [de costas], será para a mulher; e, ficando de bruços, deverá pertencer a um homem. Isto, depois de ser preparado convenientemente por um pajé. Para os indígenas, o amuleto trará felicidade e fortuna a quem o possuir.

O Uirapuru também inspirou a elaboração de algumas músicas populares. Uma delas foi composta por Jacobina e Murilo Latini, e interpretada por Pena Branca e Xavantinho. A letra é a seguinte:

UIRAPURU

Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
A mata inteira fica muda ao teu cantar,
Tudo se cala para ouvir tua canção,
Que vai ao céu numa sentida melodia,
E vai a Deus em forma triste de oração.
Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
Se Deus ouvisse o que te sai do coração,
Entenderia que é de dor tua canção,
Que nos seus olhos anda o pranto em moradia,
Que daria para salvar o meu sertão.
Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.

A melodia dessa canção pode ser apreciada nos sites: http://br.geocities.com/geprudauirapuru/cancao.htm e
http://www.boemio.com.br/uirapuru.htm.

Uma outra canção foi composta por Waldemar Henrique em 1934. Eis a sua letra:

UIRAPURU

Certa vez de montaria,
Eu descia o Paraná,
E o caboclo que remava,
Não parava de falar,
Oh, oh, não parava de falar,
Oh, oh, que caboclo falador!

Me contou do lobisomem,
Da Mãe-D’água e do Tajá,
Disse do Jurutahy,
Que se ri pro luar,
Oh, oh, que se ri pro luar,
Oh, oh, que caboclo falador!

Que mangava de visagem,
Que matou surucucu,
E jurou com pabulagem,
Que pegou o Uirapuru,
Oh, oh, que pegou o Uirapuru,
Oh, oh, que caboclo tentador!

Caboclinho, meu amor,
Arranja um pra mim,
Ando roxo pra pegar unzinho assim...
O diabo foi-se embora,
E não quis me dar,
Vou juntar meu dinheirinho,
Pra poder comprar...

Mas no dia em que eu comprar,
O caboclo vai sofrer,
Eu vou desassossegar,
O seu bem-querer,
Oh, oh, o seu bem-querer,
Oh, oh, ora deixe ele pra lá!

As lendas relativas ao Uirapuru inspiraram, inclusive, vários artistas. Em 1917, o maestro Heitor Villa-Lobos compôs um poema sinfônico baseado em material folclórico coletado em viagens pela Região Norte. Nesse material, havia a narrativa de uma lenda bem simples: uma jovem, ao ouvir o canto do Uirapuru (considerado como o rei do amor), atirou uma flecha em seu coração. E, com o transpassar da flecha, o pássaro se transformou em um belo jovem. Cabe registrar que, em 1935, o maestro Villa-Lobos fez algumas correções na partitura da música, para a sua estréia em Buenos Aires.

Por sua vez, no Pará, foi montado um espetáculo teatral onde foram utilizados materiais regionais e bonecos gigantes, inspirados nos bonecos Licocós, dos índios Carajás. No ano 2000, esse espetáculo foi premiado pelo edital de teatro da Prefeitura de Belém.

São bastante raras, contudo, as pessoas que conseguem ouvir (ou ouviram) o Uirapuru cantar. Isto se deve a alguns aspectos importantes: 1. esse pássaro canta nos galhos mais altos das matas e florestas amazônicas; 2. o canto visa atrair a fêmea para o acasalamento; 3. ele dura, somente, de dez a quinze minutos; 4. ele ocorre, apenas, ao amanhecer e ao anoitecer; 5. ele canta, unicamente, durante a construção do seu ninho (cerca de quinze dias por ano). Além disso, há que se levar em conta a caça predatória, em busca de amuletos, que vem contribuindo, sobremaneira, para o extermínio da espécie.

Por fim, cabe salientar que o Uirapuru - um pássaro tão pequeno quanto um pardal - veio enriquecer o folclore brasileiro através de lendas, mitos, crenças em seus poderes sobrenaturais, melodias, canções, sinfonias compostas em seu nome, e amuletos comercializados. Não há canto mais belo que o dele. Quando o Uirapuru se pronuncia, todos os pássaros parecem ficar enfeitiçados e param de cantar. Tudo indica que eles jamais ousariam interromper o mais raro, melodioso e sagrado dos mestres canoros.

Fontes consultadas:

ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil folclore: histórias, costumes e lendas. São Paulo: Editora Três, 1982.

CANÇÃO do uirapuru. Disponível em: <> Acesso em 21 ago. 2006.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 4. ed. São Paulo: Melhoramentos; [Brasília]: INL, 1979.

______. Lendas brasileiras: 21 histórias criadas pela imaginação do nosso povo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d.

HORTA, Carlos Felipe de Melo Marques (Org.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Editora Leitura, 2000.

MAGALHÃES, Basílio de. O folclore no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1960.

NERY, F. J. de Santa-Anna. Folclore Brasileiro. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1992.

O uirapuru – 2001. Disponível em: Acesso em: 13 ago. 2006.

O uirapuru. Disponível em: Acesso: em 20 ago. 2006.

RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Aurora, 1970.

UIRAPURU. Disponível em: Acesso em: 22 ago. 2006.

UIRAPURU – pássaro. Disponível em: Acesso em: 13 ago. 2006.

UIRAPURU. Disponível em: Acesso em: 20 de junho de 2006.

UIRAPURU-Verdadeiro. Disponível em: Acesso em: 20 de junho de 2006.

VALENTE, Waldemar. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979.

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

TREM DO FORRÓ

TREM DO FORRÓ

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

No Brasil, a maior parte dos trens de passageiros foi erradicada. Entretanto, no final do século XX, um programa turístico diferente passava a ser oferecido à população: o chamado Trem do Forró.

O que veio a ser isto?

No período de São João, na Estação Central, alguns trens movidos a óleo diesel eram fretados especialmente para fazer o percurso Recife-Caruaru. Os participantes ingressavam no trem bem cedinho e só retornavam à noite. Os vagões, decorados com motivos juninos, conjuntos musicais compostos por uma sanfona, um zabumba e um triângulo, se encarregavam de animar os passageiros. Quadrilhas improvisadas e muito forró, representavam um verdadeiro arraial sobre os trilhos. Quando o trem parava nas estações, as pessoas eram saudadas pelos presentes.

Ao chegar na Estação Ferroviária de Caruaru, os turistas presenciavam uma verdadeira festa: havia a queima de fogos de artifício, a apresentação do rei e da rainha do forró, de quadrilhas, de bacamarteiros, de bandas de pífanos, entre outros. Dali, posteriormente, os passageiros eram levados até o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, um outro local onde as apresentações continuavam.

A partir de 2001, entretanto, devido às péssimas condições da linha Recife-Caruaru, que não oferecia segurança para os passageiros, o Trem do Forró mudou o seu trajeto: passou a sair do Marco Zero, no bairro do Recife, e a percorrer, apenas, o trecho Recife-Cabo de Santo Agostinho. Ao chegar neste local, os passageiros iam para a Praça dos Eventos, ao lado da estação ferroviária, onde a festa estava sempre muito animada. E, ao retornar ao Marco Zero, todos podiam assistir aos shows de forró e de bandas de pífano, e apreciar os dançarinos vestidos em trajes de matutos.

Atualmente, existe toda uma infra-estrutura montada para atender aos participantes do Trem do Forró: cada vagão possui os seus próprios músicos, serviço de bar e segurança, havendo um vagão específico com banheiros e um departamento médico e, durante todo o percurso, dois carros vão acompanhando o trem.

Vale ressaltar que, no Estado da Paraíba, existe também um Trem do Forró. Este sai da Estação Velha, em Campina Grande, rumo ao distrito de Galante, ao som de forrós pé-de-serra, em viagem que dura uma hora e meia.

No ponto final, para acolher os participantes, há um arraial com quadrilhas e um mercado público com barracas de comidas típicas juninas. Além destas, as pessoas podem saborear algumas iguarias da culinária nordestina, tais como a buchada ou picado de bode e o arrumadinho de feijão verde. Ali, são oferecidos, ainda, passeios em carroça de burros ou em jegues. No retorno a Campina Grande, aqueles que quiserem podem se dirigir ao Parque do Povo - o principal espaço de festas de São João da Paraíba - para dar continuidade à animação.

Fontes consultadas:

TREM do forró. Disponível em: Acesso em: 11 maio 2004.

TREM do forró é uma opção recomendada. Disponível em: . Acesso em: 12 maio 2004.

TREM do forró entra nos trilhos para o São João 2004. Disponível em: Acesso em: 12 de maio 2004.

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

TORRE MALAKOFF

TORRE MALAKOFF

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

No porto do Recife existe uma praça que já foi chamada de Voluntários da Pátria, Arsenal da Marinha, e, hoje, é denominada Praça Artur Oscar, em homenagem a um dos generais que comandaram a campanha de Canudos. É precisamente nessa praça, no bairro do Recife, próximo ao porto, que se destaca a Torre Malakoff, um monumento que faz parte do patrimônio histórico e turístico da cidade.

A torre, construída em estilo oriental (tunisiano), foi assim nomeada pela sua semelhança com uma fortificação da península da Criméia, que funcionou como centro de defesa de Sebastopol, no ano de 1855. Neste sentido, cabe esclarecer que a guerra da Criméia foi travada no século XIX (de 1854 a 1855), entre a Rússia do czar Nicolau I, de um lado, e a França, a Turquia, a Inglaterra e Piemonte, do outro. E a Torre Malakoff de Sebastopol foi tomada por Mac-Mahon, dando aos aliados a vitória naquele conflito.

A torre recifense possui um minarete branco, em forma quadrangular, um relógio, uma pequena cúpula, ameias nos ângulos, e algumas janelas estreitas pintadas na cor azul. O monumento serviu, durante muitos anos, como observatório astronômico e sede da Capitania dos Portos em Pernambuco. Nele, há um grande portão de ferro com uma data gravada: 1853. E, em um escudo acima do portão, lê-se: 1855.

Na década de 1920, vários jornalistas liderados por Mário Melo lutaram para preservar o monumento, evitando que o Governo Federal o demolisse. Coincidentemente, do lugar onde se encontra, hoje, o busto do célebre intelectual, na avenida que leva o seu nome, é possível se avistar, ao longe, a tão imponente Torre Malakoff.

Fontes consultadas:

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal do Recife, 1998.

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.